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08/11/2019

J. Kendall #139

À espera de Myrna


É indiscutível que Julia Kendall, enquanto personagem de BD, vai bem além da bidimensionalidade do papel, assumindo-se a várias dimensões: mulher, criminóloga, professora, neta, irmã, amante…
Por isso se entende que os sucessivos casos que investiga apresentem sempre criminosos ‘novos’ sem qualquer tipo de recorrência. Ou quase.
É por tudo isto, no entanto, que se tornam especiais os poucos confrontos que em 20 anos de existência teve com a sua ‘besta negra’, o que faz com que os leitores estejam sempre à espera de Myrna.
[O texto que se segue desvenda um pouco da segunda história deste volume, mas não mais do que a sua introdução em J. Kendall #139; mesmo assim, leiam-na por vossa conta e risco.]
Myrna, Myrna Harrod, a assassina em série que apresenta em Julia um papel semelhante ao de Mefisto em Tex: os encontros são raros, mas sempre memoráveis.
Loucura sem fim, segundo relato deste volume #139 da edição brasileira das aventuras da criminóloga de Garden City, marca mais um desses encontros (in)desejados (conforme o ponto de vista das duas protagonistas).
Duas protagonistas, sim, porque quando Myrna entra em cena, rouba boa parte dela a Julia, quer do ponto de vista visual para o leitor, quer na condução da narrativa através dos seus pensamentos, papel que geralmente cabe a Julia.
O relato começa com a fuga de Myrna do hospital em que estava internada, em coma, recomeçando a sua senda sanguinária que progressivamente a encaminha para Julia.empurrada, em parte, pelas reminiscências e memórias de infância.
Ao desejo de reencontro dos leitores com a assassina, Berardi (cor)responde com um argumento forte, a dois tempos - Julia num local secreto, protegida por Alan Webb, e Myrna numa cruzada assassina na sua direcção, eliminando aqueles com quem se cruza - numa narrativa em que as páginas parecem multiplicar-se para impedir o frente a frente entre as duas mulheres, movidas por sentimentos antagónicos.
A gestão de tempo de Berardi chega a ser cruel, pela forma como mais do que uma vez o ponto de não retorno para o inevitável encontro é simulado (para os olhos do leitor) sem que se concretize. Para, afinal, no final, ocupar apenas umas escassas meia dúzia de páginas…
...mas deixando a promessa de um próximo - mas não antes de (mais uma) longa espera - regresso.

Capas, outra vez
Depois de Moonshine #2 Comboio dos Tormentos, volto ao tema das capas.
As da Sergio Bonelli Editiore, nas suas edições tradicionais, de venda em bancas e quiosques - admiradas por uns, odiadas por outros - são características e ostentam durante anos, lustros, décadas a assinatura - o traço, o estilo, a visão da personagem… - de um mesmo autor. Mauro Soldi, no caso de Julia, do número inaugural até ao #157.
A partir daí foram entregues a Cristiano Spadoni que, para além do estilo diferente, mais arejado, apresenta aos leitores uma nova Julia, menos receosa e tímida, mais capaz de assumir o comando e de arriscar onde antes hesitava, em suma, mais em linha com aquela que as últimas edições têm revelado.

J. Kendall As aventuras de uma criminóloga #139

Uniforme manchado
Berardi e Calza (argumento)
Ernesto Michelazzo (desenho)

Loucura sem fim
Berardi e Mantero (argumento)
Steve Boraley (desenho)

Mythos Editora
Brasil, Março/Abril de 2019
135 x 180 mm, 260 p., pb, capa mole, mensal
R$ 19,80 / 9,00 €

(capa brasileira disponibilizada pela Mythos; capa italiana disponibilizada pela Sergio Bonelli Editore; pranchas disponibilizadas por José Carlos Francisco; clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

2 comentários:

  1. Boa tarde,
    Pedro, pode-me informar onde posso encontrar estas edições brasileiras em V. N. Gaia?
    Obrigado

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    Respostas
    1. Actualmente, tanto quanto sei, as edições da Mythos só se conseguem encomendando directamente no Brasil.
      Boas leituras!

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