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18/02/2019

Trap

Sem dizer palavra



Se a banda desenhada nunca precisou de texto escrito para ser lida e compreendida, nem sempre esse tipo de obra revela a necessária legibilidade.
Neste particular, Trap funciona perfeitamente e, sem dizer uma palavra, o autor conduz-nos por uma estranha narrativa.
O seu protagonista é um caçador solitário que vive na selva, acompanhado apenas pelo seu cão. Na luta constante pela sobrevivência, as presas que apanha, entre animais identificáveis e outros mais fantásticos, servem-lhe de alimento mas também de instrumentos pois, as suas peles, uma vez colocadas sobre a cabeça, conferem-lhe a forma e as características desse animal.
A destruição de uma pequena aldeia por uma besta feroz, levá-lo-à numa violenta senda de vingança, onde as armadilhas se multiplicarão, numa inflexão narrativa que acaba por contrariar o tom claramente humorístico das primeiras pranchas.
O traço de Burniat e Michiels, simples, muito ágil e dinâmico e servido por um colorido plano mas que pontua os diversos momentos do relato, sem ser visualmente muito atractivo, revela-se extremamente expressivo e, a par de uma planificação só aparentemente tradicional, revela grande eficácia e transforma o que poderia ser apenas um exercício de estilo numa leitura agradável e despretensiosa, que se faz virando quase compulsivamente página após página, descobrindo as peripécias, perigos e surpresas, que se sucedem a bom ritmo.

Trap
Mathieu Burniat (argumento e desenho)
Loup Michiels (desenho)
Dargaud
França, Janeiro de 2019
150 x 210 mm, 180 p., cor, capa dura
EAN 9782205079272
13,00 €

(imagens da edição original francófona; clicar nelas para as aproveitar em toda a extensão)

6 comentários:

  1. Sendo bem feito, são excelentes.
    Dos que me lembro agora, os livros de do "pequeno pai natal" do Thierry Robin, "Emigrantes" do Shaun Tan e num registo bem 'diferente' "The dream of Cecilia" de Von Gotha.

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  2. Xico Manel não é preciso ir para o estrangeiro. De um autor português temos o excelente Kong da King. A editora do KingpinBooks tem ainda em catálogo outro livro excelente sem diálogos chamado Pétalas.
    Mas o Kong é especial.

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    Respostas
    1. Xiça... Mea culpa.
      Falhou-me esse (Kong)
      Não tenho a certeza se tenho o Pétalas. Mas se tenho, não me marcou grande coisa. Ao contrário do excelente Kong.

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    2. Sim, o Kong the King é um excelente exemplo. E também gostei do Pétalas.
      Boas leituras... mudas!

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  3. E o "Gon" do Tanaka mete essas vossas preciosidades todas no bolso! :P

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  4. Gosto muito do Gon do Tanaka, uma BD doentiamente violenta e divertida, mas em termos de conteúdo, ainda prefiro o Kong, do Osvaldo Medina.
    Boas leituras

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