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13/09/2018

Uma irmã


Irregular


Tenho tido uma ‘relação’ irregular com Bastien Vivés.
Admirei (moderadamente…) Le Gout du Chlore, achei brilhante Dans mes yeux, abandonei Lastman ao fim de poucos capítulos, não consegui ver em Polina (tudo) aquilo que tantos proclamaram.
Uma irmã é mais um capítulo deste percurso que, se não me rendeu (outra vez) a Vivés, me proporcionou uma leitura envolvente.
Começo pelo que me desagradou. Desde logo, os rostos (por vezes) sem olhos - o que os torna inexpressivos, pormenor de suma importância numa narrativa em que as emoções se sobrepõem às acções.
E, também, a ‘maturidade’ dos protagonistas, que, para mim, não combinam com o que a obra nos conta. Antoine, de 13 anos, parece-me (física, mental e sexualmente) mais próximo do seu irmão Titi (de 10) do que de Héléne (de 16). Que, indubitavelmente, está bem mais desenvolvida - e até em sintonia - com os rapazes (mais velhos) que conhece no local onde passam férias.
Uma irmã, convém situar quem lê estas linhas, narra (mais) umas férias de Antoine, Titi e os seus pais, numa pequena vila junto à praia. Desta vez, com a companhia de Sylvie, que acabou de ter um aborto espontâneo, e a sua filha Héléne.
Entre a praia, as festas populares e o muito tempo livre, esta última e Antoine vão desenvolver uma atracção mútua que para o rapaz será de descoberta da sexualidade e do sexo. Héléne dar-se-á - moderadamente… - a outro rapaz local, constrangendo - mas não afastando - Antoine, sem dúvida perdido entre a adolescência infantil e o desabrochar de uma outra realidade, a sensação de euforia que cada contacto com a jovem proporciona em contraste com o ciúme e o sentimento de rejeição que sente quando a vê com outro(s).
Vivés, com um traço (sem expressões faciais…), simples mas muito eficiente e de uma assinalável agilidade e dinamismo - como já nos mostrara em Polina - narra-nos de forma terna e contida, a relação que os dois jovens vão desenvolvendo, com avanços e recuos, desilusões e surpresas, iniciação e descoberta, uma relação daquelas que nunca mais se esquece e fica como boa memória para toda a vida.
E que o autor vai tornar ainda mais forte e significativa, quase no fim do relato, com um pormenor - imenso… - que no momento parece insignificante mas que terá uma importância determinante. E que, obviamente, não vou referir mas que convido a descobrirem, porque é ele que torna obrigatória uma leitura que já se justificava.

Uma irmã
Bastien Vivés
Levoir
Portugal, 11 de Julho de 2018
195 x 280 mm, 224 p., pb, capa dura
10,90 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

2 comentários:

  1. Tenho uma relação próxima (familia) com um rapaz de 13/14 e uma rapariga de 16/17 e a "maturidade" das personagens bate pefeitamente com a maturidade observada na "bida real" :-)

    Por vezes a falta de expressão nas caras é realemtne irritante, mas nos momentos necessários as caras são bem expressivas. E isso é verdadeiramente visível na vinheta da segunda página que apresentas. No olhar espantado/admirado do rapaz ao ver a desenvoltura com que Helene se despe e nomeadamente os seios no soutiã mesmo ao lado da sua cara...

    Ainda não li o Polina. Quando vejo/leio por "meia internet fora", grandes louvores a uma obra... costumo ficar de "pé atrás". Pelo que acabo por ir adiando a sua leitura.

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  2. Para mim o melhor livro desta última coleção das Novelas gráficas.

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