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30/07/2018

Pepe Carvalho: Tatuagem

Adaptar...


Numa colecção Novelas Gráficas 2018 que - na sua quarta edição - de alguma forma se constrói (três livros em dez) sob o signo das adaptações literárias - que até podia ser o mote para uma colecção completa da Levoir com o jornal Público - Tatuagem apresenta - em BD - Pepe Carvalho, o detective privado criado na literatura por Manuel Vásquez Montalbán.
Ex-agente da CIA, nascido na Galiza, residente em Barcelona, Pepe Carvalho, para além - ou antes do mais - é também um amante de literatura e um conhecedor gourmet, indefinido na sua complexidade de verdadeiro ser humano.
O romance Tatuage, publicado originalmente em 1974 marcou a sua estreia como protagonista, depois de uma aparição, dois anos antes, noutro livro de Montalbán. Bem-amado em Espanha, com adaptações ao cinema e à televisão, Pepe Carvalho é tudo menos um detective privado típico. Daqueles, guarda a inquietude, uma boa rede de informantes, com Bromuro à cabeça, diversas ligações ao sub-mundo de Barcelona e um inquestionável poder de atracção sobre as mulheres, pese embora o eterno regresso à sua amada Charo, prostituta e confidente. A esta marginalidade omnipresente, fogem a sua inclinação para a literatura, a cultura e a gastronomia que, nas histórias que interpreta que vão bem além do mistério policial que lhe serve de base, coexistem com o lugar importante que ocupam nos seus monólogos e diálogos a situação política e a realidade social espanhola sob o regime franquista.
Este Tatuagem, na adaptação de Migoya e Seguí (que conhecemos do magnífico Histórias do Bairro, da colecção Novela Gráfica 2017), dá relevo a todos esses aspectos, numa fidelidade ao original assinalável, embora excessiva aqui e ali, nomeadamente na quantidade monólogos e pensamentos interiores dos intervenientes introduzidos (ou mantidos?), que atrasam a leitura e cortam demasiado no ritmo da acção. Porque, recordo, adaptar é mais do que ser fiel, passa por recriar no novo meio a história, sem trair esta nem subverter a forma narrativa utilizada.
Ao trabalho gráfico de Seguí parece ter faltado algum tempo, pois identificam-se alguns desequilíbrios entre diferentes pranchas - e não é uma questão de evolução na procura do melhor registo, pois elas surgem entremeadas, com as personagens demasiado caricaturais aqui e ali. O que não impede que, globalmente, o seu traço não esteja muito conseguido, com uma magnífica reconstrução da Barcelona dos anos 1970, muito bem trabalhada em termos de luminosidade ou jogos de sombras, numa composição de pranchas que merece ser apreciada demoradamente, depois da leitura da obra.
Na origem deste caso, está o aparecimento numa praia de um cadáver com uma curiosa frase tatuada nas costas. O pedido de investigação a Pepe Carvalho, por parte de um particular, levá-lo-á num longo périplo por Barcelona, os seus arredores e Amesterdão, com diversas pistas que se cruzam e contradizem até ao desfecho final, inevitavelmente surpreendente e que comprova como tantas vezes a montanha pare ratos...

[Nota: o livro foi lido na sua versão francesa, e foi nela me me baseei para escrita deste texto; são dela também as pranchas mostradas.]

Pepe Carvalho: Tatuagem
Segundo o romance de Manuel Vázquez Montalbán
Hermán Migoya (argumento)
Bartolomé Seguí (desenho)
Levoir/Público
Portugal, 25 de Julho de 2018
88 p., cor, capa dura
10,90 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

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