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04/06/2018

Duke #1 e #2


 
Confiança

Uma das coisas boas que o actual momento editorial trouxe, foi fazer com que os leitores voltassem a ganhar confiança nas editoras, acreditando que quando começam uma série, ela terá (quase sempre) continuidade.
[Escrevi ‘quase sempre’, porque há imponderáveis de vária ordem que podem ocorrer e impedir essa continuidade - o primeiro e mais importante dos quais, a não adesão dos leitores à proposta editorial em causa.]
No caso de Duke, o mais recente western de Hermann, isso não parece ter acontecido e, assim, poucos - pouquíssimos! - meses depois do primeiro volume - inteligentemente - editado a propósito da presença do veterano autor franco-belga na Comic Con Portugal 2017, temos já disponível o segundo tomo, Aquele que mata.
Se reconheço valor e interesse a muitas das (muitas) obras que Hermann nos proporcionou ao longo de décadas, como um dos grandes nomes da BD francófona, quando ele é citado, à minha mente ocorre sempre aquela que foi, no momento da sua leitura (adolescente) a obra que mais me marcou: Comanche. Por isso, o seu regresso ao western - com Old Pa Anderson como com este Duke - é sempre especial para mim, talvez nostálgico do que encontrei há quase quatro décadas - e reli vezes sem conta desde então.
Duke é diferente de Comanche, claro. As indefinições são maiores, as personagens ostentam mais zonas nebulosas, a barreira entre bons e maus é mais ténue e difusa… A época - sendo a mesma - continua sombria e violenta. Mais violenta, atrevo-me a escrever, porque, mudados os tempos, Hermann - agora com Yves H., então com Greg - pode mostrar e (também) sugerir muito mais do que fazia na época da pré-publicação nas páginas delicodoces da revista Tintin.
Graficamente, Hermann também mudou. Trinta ou quarenta anos de intervalo consagraram-no (justamente) como um dos melhores desenhadores que a banda desenhada já conheceu. É verdade que o seu traço já não tem o pormenor e, aqui e ali, a precisão, de obras (mesmo) recentes anteriores. A idade - perto de 8o anos - pesa, mas é bem compensada pela sua experiência, pela sua mestria. Duke - mais do que foi Comanche - é mais um belo exemplo do que deve ser uma composição dinâmica das pranchas ao serviço da narrativa e, mais ainda, da boa utilização da cor, das sombras e dos jogos de luz, para definir ambientes, cenários, espaços temporais, sem necessidade de quaisquer palavras.

Aquele que mata, arranca dois anos depois de A Lama e o Sangue. Duke e Peg continuam em Pueblo, no Colorado, mas ambos sabem, por muito que se queiram iludir, que o regresso do pistoleiro a Ogden será só uma questão de tempo, mais do que de motivação. Seja pelo irmão que deixou - e a esposa deste com quem parece ter uma relação ambiguamente próxima -, seja pelo respeito que, apesar de tudo, deve ao xerife Sharp, seja pelas contas que tem a ajustar com o todo-poderoso Mullins, senhor de meia cidade. Seja, supostamente, pela vontade de conseguir os meios monetários para cumprir o sonho de Peg.
Desta vez, a acção é espoletada por um violento assalto a uma diligência, de que todos os passageiros foram mortos com excepção de uma menina. A perseguição ao bando, em troco de uma recompensa choruda, vai levar Duke de volta ao seu passado, ao seu primeiro grande amor juvenil e a descobrir, mais uma vez, que ter uma arma nas mãos, sendo o melhor que sabe fazer, é sempre mais um passo em frente para o seu próprio abismo pessoal.
Obra madura e consistente, Duke, apesar de poder ser lido apenas como um bom western, deixa também uma mensagem de profunda desilusão em relação ao ser humano, coerente com o que Hermann tantas vezes professou, o que faz dele, embora criado a quatro mãos, uma obra pessoal

Duke
#1 A Lama e o sangue
#2 Aquele que Mata
Yves H. (argumento)
Hermann (desenho e cor)
Arte de Autor
Portugal, Outubro de 2017/Maio de 2018
230 x 300 mm, 56 p., cor, capa dura
15,00 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

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