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13/06/2018

Aqui Mesmo


Contra os autores






Costuma dizer-se que uma obra, uma vez escrita - e também desenhada, no caso de uma BD - deixa de estar na posse do(s) seu(s) autor(es) e passa a pertencer aos seus leitores. Mesmo quando estes discordam expressamente daqueles...

Foi o que me aconteceu neste regresso a Aqui Mesmo, de que fui leitor privilegiado porque também tradutor.
Concluída esta última função, antevendo já a escrita do texto para As Leituras do Pedro, comecei a alinhavar ideias. Desde logo que Aqui Mesmo, é uma (triste) alegoria da condição humana, da sua pequenez e mesquinhez, dos sujos jogos políticos, da sobreposição de interesses, passada em lugar desconhecido, numa época indeterminada.
É a história de Arthur Mesmo, último herdeiro de Mornemont, conhecido como o País Fechado, uma pequena região (francesa?) independente - ou mais exactamente autónoma - desde os tempos da monarquia. País Fechado que, aos poucos, pelas dificuldades financeiras surgidas, o sr. Mesmo teve de ir retalhando, vendendo pedaço após pedaço, até ficar apenas com os muros que cercam as diferentes propriedades. É nesses muros que se encavalita a sua pequena residência, é por esses muros - e só por eles - que transita, para abrir e fechar os portões que dão acesso às propriedades. Tarefa que cumpre, em troca de pequenas moedas, sem horário nem regalias, sempre que alguém faz soar uma sineta.
Essa existência estúpida - o termo é mesmo este - produz-lhe pouca satisfação e nenhuma realização pessoal, vivendo embalado pelo sonho de um dia o processo de retoma das terras em curso nos tribunais (franceses?) ser concluído e ser-lhe dada razão, permitindo-lhe retomar a totalidade do que em tempos pertenceu aos seus antepassados.
Em simultâneo, na república (francesa?) aproximam-se eleições e o presidente em funções, antecipando a mais que certa derrota, idealiza um exílio temporário, a partir do qual, na altura certa, efectuará o triunfante regresso.
O cruzamento destas duas realidades, até aí paralelas, e a entrada em cena - para os leitores - do merceeiro navegante e da estouvada Julie, vão fazer balançar o equilíbrio até aí existente em Mornemont e revelar o melhor e o pior dos diferentes intervenientes - obrigados a viver fora das suas zonas de conforto - acentuando o tom de farsa desconcertante de Aqui Mesmo, num crescendo que se vai tornando incómodo e acabar por deixar um gosto amargo no leitor.
Digo eu, contrariando o argumentista, Jean-Claude Forest que, no seu prefácio, escreve: “Não me venham dizer que Aqui Mesmo é um panfleto, uma sátira da nossa sociedade ou dos representantes do seu regime político...
Por isso, desta vez, aconselho que leiam primeiro a obra e só depois o que o seu autor pensa dela. E que comparem opiniões...

Aqui Mesmo
Jean-Claude Forest (argumento
Jacques Tardi (desenho)
Levoir/Público
Portugal, 13 de Junho de 2018
220 x 300 mm, 208 p., pb, capa dura
10,90 €

(imagens cedidas pela editora; clicar nelas para as apreciar em toda a sua extensão)

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