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03/05/2018

Julia: O Eterno Repouso


Julia, finalmente




E ao quarto volume da Colecção Bonelli finalmente chega Julia.
Quem segue este blog, sabe que já lhe dediquei muitos textos - quase quatro dezenas, na verdade! - por isso esta edição é duplamente agradável para mim. Pela edição em si e, acessoriamente, porque tive a oportunidade de a traduzir - e dessa forma entrar mais profundamente na escrita de Berardi.

Julia - como em tempos Ken Parker, que não por acaso tem criação e escrita do mesmo Giancarlo Berardi - é uma excepção (preferem um caso à parte?) - no universo Bonelli, desenvolvido com base em heróis fortes e infalíveis, determinados e sem dúvidas.
Julia - como Ken Parker... - não é assim. Tem dúvidas e poucas certezas, falha por vezes, não é forte e muito menos infalível, embora a determinação seja uma das suas características. É antes de tudo humana e gosta de observar os outros, de - mais do que apanhar os criminosos - compreender as motivações, as questões, as razões que os levaram aos actos. Pessoais e sociais. Individuais e colectivas. Voluntárias e provocadas.
Mulher autónoma, embora por vezes dependente, professora universitária, consultora, enquanto criminóloga, da polícia da - fictícia - Garden City onde vive, solteira - enquanto a isso a Bonelli obrigar...? - o que não a impede de alguns relacionamentos pontuais, mais ou menos duradouros, Julia é protagonista mas não heroína, é principalmente humana.
Como humanas - com generosas doses de crítica social - são as histórias que Berardi - com alguns (poucos) cúmplices na co-escrita - tem partilhado com os leitores desde há muitos anos para cá.
Não sendo, possivelmente, esta a melhor história de Julia - qual será, afinal, entre as mais de duas centenas já publicadas? - é uma bela porta de entrada para um universo em constante construção e mudança ou não fosse todo ele baseado em factos reais e situações que reconhecemos do nosso próprio quotidiano globalizado.
Em O Eterno Repouso, tudo começa com o desaparecimento de um dos internos de um lar de idosos e uma macabra descoberta no jardim do mesmo lar. Em paralelo - com a inevitável confluência a que Berardi já nos habituou - conhecemos um casal em rota de colisão e um assaltante de pequena escala e pouca sorte.
Os problemas - e algumas vantagens... - geralmente associados à velhice - a solidão, o esquecimento, o abandono, a perda de qualidades... - a dificuldade (directa e indirecta) dos relacionamentos - ainda mais quando os seus componentes estão em posição (de força) diferentes - e a pressão social, ganham aos poucos contornos de protagonismo e são estas temáticas que vão balizar mais uma história forte e fracturante de Julia, daquelas que não acabam quando se fecha a edição.

Inevitavelmente - revejo os textos que já escrevi sobre esta colecção e lá está sempre este factor - tenho de falar do desenhador.
Esta história foi escolhida por causa dele, no caso o grande, enorme Sergio Toppi - autor do belíssimo Sharaz De - que não teve problema em colocar a sua arte ao serviço de uma série regular mensal, por isso com um apertado caderno (gráfico) de encargos. Toppi cumpre a sua função, adaptando o seu traço ao visual da série, com reforço na expressividade dos intervenientes, e brilha especialmente na (forte) sequência do pesadelo.
Mais um sinal da importância da Bonelli em Itália onde, como Toppi, grandes nomes dos quadradinhos não têm hesitado - quando não mesmo pedido - em colocar a sua (grande) arte ao serviço de produções essencialmente populares...

Julia: O Eterno Repouso
Giancarlo Berardi (argumento)
Sergio Toppi (desenho)
Levoir/Público
Portugal, 3 de Maio de 2018
190 x 260 mm, 136 p., pb, capa dura
10,90 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

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