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20/01/2013

Mortadela e Salamão, 55 anos de trapalhadas explosivas






  



Há 55 anos, o país vizinho assistia ao nascimento de duas das mais atrapalhadas e perigosas personagens que a banda desenhada já conheceu. Tinham nome de carne de porco – Mortadela e Salamão – e eram criação de Francisco Ibañez.

Fazendo jus à tradição das hisporietas, o título original – “Mortadelo y Filémo, agencia de información” –rimava, e o modelo satirizado era a dupla Sherlock Holmes/Dr. Watson.
Nessa primeira aparição, ainda a preto e branco, que teve lugar na mítica revista espanhola “Pulgarcito” n.º 1394, da Editorial Bruguera, corria o dia 20 de Janeiro do ano de 1958, Mortadelo e Salamão apresentavam visuais diferentes, eram os únicos detectives de uma agência e as histórias, de uma única página, terminavam sempre com o fracasso da sua investigação.
Depois, no final da década de 60, as histórias cresceram, ganharam cor, multiplicando-se os trocadilhos, situações absurdas, crítica social e gags visuais, os heróis passaram a agentes secretos da T.I.A. (Técnicas de Investigação Aeroterráqueas), continuando especialistas nas maiores confusões. Tiros, explosões, quedas abruptas, choques eléctricos, com as consequentes fracturas, queimaduras, perda de membros – tudo provisório, claro - eram o seu pão quotidiano, com o chefe Salamão (Filémon no original) a ser quase sempre a vítima da total inépcia de Mortadela.
Na narração das suas aventuras, em ritmo muito acelerado apesar da profusa utilização de diálogos palavrosos e de vinhetas repletas de pormenores, Ibañez, nascido em 1936, optou por um traço arredondado, muito ágil e dinâmico e pelo recurso frequente a metáforas visuais (conforme as situações, Mortadela pode aparecer como uma tartaruga, um cão, uma máquina ou um veículo…) que se tornaram uma das imagens de marca da série.
Recorrentemente, ao lado dos protagonistas, surgem o Super, director da T.I.A, o Doutor Bactério, inventor dos mais bizarros engenhos, todos com a particularidade de não desempenharem a função para que foram criados, e a volumosa Ofélia, vítima dos remoques de Mortadela.
Entretanto, em meados dos anos 80, um diferendo com o editor levou Ibañez a perder os direitos das suas personagens, que seriam continuados – com menos originalidade e interesse - por diversos outros autores, alguns dos quais se tornariam depois c colaboradores de Ibañez, numa fase híbrida dos dois trapalhões.
Já nos anos 90, com o criador original de novo à frente dos seus destinos, esta banda desenhada passou a explorar temáticas na moda ou eventos mediáticos, como os recentes Jogos Olímpicos de Londres, local de uma das suas mais recentes barafundas.
Ainda em publicação, com quase duas centenas de álbuns, Mortadelo e Salamão saltaram das páginas da BD para desenhos animados logo nos anos 60 e, depois, para longas-metragens de animação ou com intérpretes de carne e osso (com Benito Pocino e Pepe Viyuela como protagonistas), um musical e diversos videojogos.
Apesar da proximidade geográfica, Mortadela e Salamão (a exemplo de outros sucessos da Editorial Bruguera) não conseguiram repetir o êxito em Portugal, onde mesmo assim foram editados perto de duas dezenas de títulos, a maior parte deles nas décadas de 70 e 80, com a chancela da Paralelo.
Já este século, houve duas ténues tentativas de fazer regressar as suas aventuras ao mercado português, primeiro pela Meribérica (“Fórmula 1”, 2001) e depois pela ASA (“Estrelas de Cinema”, 2005).

(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 20 de Janeiro de 2013)


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