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24/06/2012

Entrevista a Georges Wolinski

"A política é mais fácil do que o sexo"











Em 2004, aproveitando a passagem de Wolinski pelo PortoCartoon, cujo júri integrou, tive a oportunidade de entrevistar o cartoonista francês Georges Wolinski.
A pretexto da exposição que o Museu Nacional da Imprensa lhe dedicou a propósito dos seus 50 anos de carreira, inaugurada ontem, aqui fica o registo dessa entrevista, publicada no Jornal de Notícias de 19 de Junho de 2004, mas que continua perfeitamente actual.




Pedro Cleto - Desenha há 40 anos. Como vê a sua evolução pessoal e a do Mundo?
Georges Wolinski - Uma pergunta interessante... Sabe, quando se começa, descobre-se. Fazem-se progressos. No desenho, hoje, sou melhor do que há três anos. Mas há 40 anos, fazia desenhos formidáveis, com frescura, imaginação. Comecei a desenhar sobre amor e sexo ao mesmo tempo que descobria o amor e o sexo. Depois do Maio de 68 comecei no desenho político. Até aí não me interessava - nem sabia se o sabia fazer. Há 40 anos já havia desenhadores formidáveis: Bosch, Sempé. Mas o desenho não é melhor hoje. Há só mais liberdade.

PC - Ainda há censura nos jornais?
GW - Há a censura do dinheiro - a pior de todas. Mais do que a censura moral, há a censura económica, dos homens de negócios, dos grandes industriais dos jornais.

PC - Teve muitos problemas com os seus desenhos?
GW - Não, nem por isso. Sou demasiado esperto! (risos) Sou um desenhador de esquerda, com convicções. Um bom desenhador político tem que ter convicções - e ideias e valores. Eu tenho valores de esquerda.

PC - Isso não afecta o seu trabalho?
GW - Basta que seja um bom profissional. Faço desenhos que poderiam, da mesma forma, ser publicados num jornal de direita ou num jornal de esquerda. Digo o que penso, mas não sou militante - um humorista não pode ser militante. Claro quando se fala de sexo é diferente. Para o semanário Journal de Dimanche faço desenhos políticos; no Charlie Hebdo, um jornal satírico, tenho toda a liberdade para o que quiser. Quanto ao Paris-Match, um jornal nacional, posso incluir um pouco de... belas mulheres! Posso desenhar o Chirac a ser entrevistado por uma bela jornalista, que cruza as pernas, mostra um pouco as cuecas... e isso diverte-me! Mas isso já não incomoda ninguém. Esta época é muito mais livre do que antes.

PC - Prefere o sexo ou a política?
GW - A política é mais fácil do que o sexo. A actualidade tem mais interesse, muda: terrorismo, eleições, dramas, acidentes... O sexo é sempre igual! (risos)

PC - Como escolhe os seus temas?
GW - Compro três jornais por dia, vejo TV, leio livros políticos, interesso-me pelo Mundo. Tenho uma certa cultura e trabalho com antecipação. Muitas vezes faço desenhos de políticos que vão fazer um discurso e já sei o que eles vão dizer.

PC - É fácil fazer rir todos os dias?
GW - Pensa-se que fazemos um desenho quando estamos inspirados. Mas não. Um jornalista recolhe elementos e depois escreve. Com um desenhador passa-se o mesmo. Perscruto a actualidade, tomo notas e... dá-se o milagre.

PC - Quando as notícias são os atentados em Nova Iorque ou em Madrid, é fácil fazer rir?
GW - Não, não é fácil. Nesses casos fiz desenhos simbólicos. Não podemos rir de tudo... No atentado espanhol representei a Europa coberta de pessoas a dizer 'Não!'. No atentado de Nova Iorque, desenhei as ruínas com uma vela e um cartão a dizer 'love'. São os únicos casos em que fiz desenhos simbólicos. Não procurei divertir, procurei a emoção.

PC - Um desenho é melhor do que um texto?
GW - Não diria isso. Mas o desenho é a primeira coisa que vemos. É essa a sua força. Mas é preciso que seja simples e conciso. Mas nada substitui um texto. Se hoje desenho, é porque li muito desde pequeno.

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