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03/04/2020

Jorge Machado-Dias (1953-2020)


Não sei quando conheci o Machado-Dias. O mais certo é que tenha sido nalgum AmadoraBD . entáo ainda só Festival de BD da Amadora.
Sei que nos encontramos várias vezes ao longo dos anos - mais outras por telefone… - e que aprendi a respeitar o seu (proverbial) mau feitio, sim, a sua paixão pela História de Portugal, claro, mas também o seu lado sonhador. Porque o Machado-Dias sonhava alto de mais para o público de BD que havia em Portugal.
Nasceu assim a pedranocharco, a sua editora, onde couberam as suas Aventuras [históricas] de Paio Peres, a escrita sui generis do José Carlos Fernandes, o manga do Hugo Teixeira, a BD de acção do Zeu, o humor do Álvaro, o Portugal contemporâneo (e terrorista) deo Filipe Pina e do Filipe Andrade, a iconoclastia de Fernando Relvas… Possivelmente antes do tempo certo - seja lá o que isto signifique...
E nasceu, principalmente, o seu BDJornal, uma publicação de informação e análise de banda desenhada, de venda em quiosque, com colaboradores pagos, no início um verdadeiro jornal - no tamanho e na forma - depois mais próximo do conceito revista, pelo qual batalhou afincadamente, duramente, arduamente, ao longo de semanas, meses, anos, até a realidade o derrotar - mas, acredito, sem o convencer.
Há alguns meses - já não sei quantos, sei que na altura o tempo ainda passava a correr - telefonou-me. Pelo meio da conversa disse que tinha um cancro, que ‘estava a tratar dele’, que o pior já tinha passado, que devia vir ao Porto em breve - para lançar um livro, fora da BD, Últimos no Leste de Angola - Na retirada do Exército Português em 1975 (Chiado Books, 2017) - e queria estar comigo.
Imaginei mais um projecto ‘louco’, mais alguma edição que extravasava a pequenez - de duplo sentido - do nosso meio, mas nunca nos chegamos a encontrar… Depois, falhei dois Amadora BD seguidos, agora já é tarde…
Machado-Dias, onde estiveres, espero que nesse paraíso misto de autores/editores/sonhadores, consigas concretizar o muito que por aqui não te deixaram fazer.
Até sempre!

(foto retiradas da página de Facebook da Tertúlia BD de Lisboa e do Tex Willer Blog; clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

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