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03/12/2019

Les couloirs aériens

Enquanto quisermos viver

Quem sabe. Talvez seja para isso que servem as histórias?
Para nos ajudarem a viver.’
In Les couloirs aériens

Yvan tem 50 anos. Em pouco tempo perdeu a mãe, o pai e o emprego. E a esposa foi trabalhar para o estrangeiro. E os filhos vivem longe.
Só, sem ocupações, instalado na cabana isolada de um amigo, no meio do nada (do Jura), coberto de neve, tem apenas as histórias do passado e a antevisão de um futuro… sem futuro.
Uma dessas histórias - que o marcou, bem como aos amigos, aconteceu na festa de aniversário de um conhecido de amigos, que festejava os 50 anos. Quando Yvan e os amigos tinham só 20, a ignorância, os preconceitos e a sobranceria dessa idade, todo o desprezo pelos mais velhos, a convicção de que tinham o mundo para conquistar, que seriam diferentes em tudo.
A noite, gozada ao máximo, marcaria os dias seguintes e também as suas vidas - de formas diferentes, caso a caso.
(Naturalmente) cerca de 20 anos depois de Algunsdias com um mentiroso - um dos livros da minha vida - que explorava os sonhos - realizados ou não - e as decepções - concretizadas - de um grupo de companheiros trintões, Davodeau - com dois amigos, Joub, parceiro de longa data, e Hermenier, grafista e fotógrafo, aborda a chegada aos 50 anos - à (falsa) meia-idade.
Fá-lo com o realismo habitual, com o seu traço eficaz, dinâmico, expressivo e extremamente legível e narrativo. E fá-lo, sobretudo, com a sua superior capacidade de escrever diálogos coerentes, credíveis, reais, daqueles que transformam as personagens de papel em gente que conhecemos, com quem nos cruzamos, com quem possivelmente até nem sequer nunca falamos, mas que reconhecemos - e reencontramos - nas páginas deste livro.
Um livro que marca o regresso do autor à ficção - de que estava ausente desde (o também muito aconselhável) Lulu,femme nue (há alguma obra dele que porventura não o seja…?) - retomando o vaivém entre a ficção, a reportagem e o documentário - desenhados - que tem marcado a sua carreira.
Fá-lo, de novo, com (evidentes) apontamentos autobiográficos - embora esteja desta vez ausente no papel - misturando as suas experiências e as dos seus amigos, com a história de Yvan que nos está a contar.
Uma história cujo tom acompanha os estados de alma do protagonista, entre a depressão, a euforia pontual, o refúgio nas memórias ou o reencontro (passageiro…?) com a felicidade, com pequenos momentos de felicidade… que todos temos, mas nem sempre queremos admitir ou prolongar, preferindo- tantas vezes! - cair na flagelação própria e na auto-comiseração.
História(s) de encontros e desencontros - principalmente com o passado, as memórias, as histórias - Les couloirs aériens, na linha do trabalho anterior do autor, mais do que dar respostas - que ninguém tem - prefere apontar caminhos, criar hipóteses, aflorar sugestões. Em suma, sem lições de moral nem paternalismos, reflecte sobre a vida, sobre a nossa vida, sobre as vidas de tantos, mas sem deixar nunca de afirmar - convictamente - que o fim só chega (cedo) quando nós deixamos e que há sempre caminhos alternativos - os amigos, as ligações que criámos, os recomeços, as paixões e os sonhos que vivemos ou abafamos - que podemos percorrer.
Enquanto quisermos viver.

Les couloirs aériens
Étienne Davodeau, Joub e Christophe Hermenier (argumento)
Étienne Davodeau (desenho)
Christophe Hermenier (fotografias)
Futuropolis
França, 23 de Outubro de 2019
220 x 300 mm, 112 p., cor, capa dura
19,00 €

(imagens disponibilizadas pela editora Futoropolis; clicar nelas para as desfrutar em toda a sua extensão)

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