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12/11/2019

Amadora BD 2019: o balanço de Álvaro, Derradé e José de Freitas

Não tendo podido ir este ano, por razões familiares, ao Amadora BD, acho mesmo assim importante que As Leituras do Pedro apresentem um balanço do que aconteceu, num ano claramente encarado como de mudança.
Desta forma, decidi convidar uma série de pessoas, de várias áreas e com experiência anterior do festival, para responderem às seguintes questões:
1. O que distinguiu o Amadora BD 2019 das edições anteriores?
2. O que precisa de mudar no Amadora BD?
3. O melhor e o pior do festival deste ano?
As primeiras respostas, de Álvaro e Derradé (autores de BD) e José de Freitas (editor) estão já a seguir.

Álvaro (autor de BD)
1. O que distinguiu o Amadora BD 2019 das edições anteriores?
Mais público, caras novas entre o público, melhor disposição geral e a sensação crescente de que o festival andava a afundar de ano para ano desapareceu.

2. O que precisa de mudar no Amadora BD?
O local, para uma zona melhor servida por transportes públicos.
Situar os dois auditórios mais próximos das zonas de autógrafos e de convívio.
E o problema habitual de evitar que os visitantes tenham de sair do recinto para visitar o outro piso.

3. O melhor e o pior do festival deste ano?
O pior:
O pior para mim terá sido o novo formato de apresentação dos prémios. O palco na zona de convívio ladeado por zonas de passagem e junto à entrada (e saída) dispersa a atenção.
E a chuva. Não é que chovesse muito. Não. Mas havia sempre aquela ameaça omnipresente de chuvada a qualquer momento. E quando chovia era aquela chuva miudinha francamente irritante, que não dá para um gajo abrir o guarda-chuva sem se sentir parvo.
O melhor:
A funcionalidade da arquitectura da zona comercial e de autógrafos.
Acho que o nível geral das exposições melhorou. Ou então eram as pessoas que andavam mais bem dispostas. Ou ambos.
Houve também elogios para uma cerveja caseira que estava por lá à venda. Não a provei. Não comento.


Derradé (autor de BD)
1. O que distinguiu o Amadora BD 2019 das edições anteriores?
Tive a percepção de que houve mais público. O facto de as exposições serem comissariadas pelos parceiros comerciais do evento permitiu que estas fossem acompanhadas por edições disponíveis para a compra, e sempre que possível, com a presença dos autores, o que é um chamariz para o público.

2. O que precisa de mudar no Amadora BD?
A comunicação melhorou mas ainda tem de melhorar muito no que diz respeito aos prémios do festival. Só na véspera se soube dos nomeados o que, francamente, a um dia da cerimónia de entrega não deixa tempo para grande promoção dos mesmos. O desaparecimento da categoria de humor quando este tem sido o principal alvo do politicamente correcto e dos movimentos extremistas por esse mundo fora, envia uma mensagem de derrota e conformismo na qual não me revejo de todo.

3. O melhor e o pior do festival deste ano?
O melhor:
As exposições, o espaço comercial / autógrafos ; a centralização no fórum.
O pior:
A comunicação ; o desaparecimento da categoria de humor; o auditório no estacionamento pode ser melhorado.


José de Freitas (editor)
1. O que distinguiu o Amadora BD 2019 das edições anteriores?
Era claro para toda a gente que o Amadora BD parecia estar numa trajectória claramente descendente (e certamente nestes últimos 5 anos), e cada ano ia sendo pior do que os anteriores. Há dois tipos de problemas, os que são visíveis pelo público: exposições por abrir, algumas das quais levavam uma semana a estar prontas, um plantel de autores que se ia empobrecendo e que muitas vezes não reflectia minimamente o que se edita em Portugal, e uma falta de comunicação do Festival que se ia tornando notória; e os problemas que são mais visíveis para os expositores: dificuldades extremas de comunicação com a organização, e em particular com o anterior director, que se reflectiam depois por vezes nalguma perda de interesse (foi uma das razões que levou a que este ano a G. Floy tivesse tomado a decisão de não estar presente directamente).

Para nós, como participantes “profissionais” (e falo aqui pel’A Seita e pela G. Floy), houve mudanças muito importantes, e em particular na comunicação com o Festival, que este ano correu muito bem, e em que sentimos pela primeira vez em muito tempo, que existiam interlocutores do outro lado com quem se podia falar, e que tomavam decisões atempadamente. Pareceu-me também que o esforço de comunicação deve ter sido mais eficiente, e muitas outras coisas - algumas pequenas, mas com impacto importante - foram mudadas e tornaram a interacção entre as editoras e o Festival melhor.

Foi também claro para nós, e para outros editores com quem falei, que a diminuição de três fins de semana para dois, não só não prejudicou o Festival, mas possivelmente terá contribuído para a sensação geral de maior entusiasmo e afluência do público que sentimos este ano. Do ponto de vista das vendas, essa diminuição não afectou em nada os resultados, e penso que tivemos o melhor ano de sempre da G. Floy, o que é surpreendente visto que este ano estávamos a ser representados pela Dr. Kartoon em vez de estarmos presentes directamente, e fizemos notoriamente menos promoções que no ano passado.

2. O que precisa de mudar no Amadora BD?
Continuo a achar que o Amadora BD precisa de estar presente mais continuamente ao longo do ano junto dos intervenientes do panorama da BD em Portugal, e junto do público, e deveriam ser criados eventos, acompanhamentos, etc... que permitissem que ele aparecesse a intervalos regulares.

É preciso também que o Amadora BD se “liberte” um pouco de certas restrições burocráticas ligadas à Câmara. É inaceitável que a Câmara tenha de aprovar a divulgação das escolhas do júri dos PNBD, e que ainda por cima os atrasos nessa aprovação desvirtuem completamente a nomeação de livros para os PNBD, fazendo com que os cinco livros nomeados se tornassem no fim livros sem qualquer projecção. A minha proposta, que já mencionei em vários sítios e à própria organização, seria que o júri de pré-selecção se fosse reunindo ao longo do ano, e fosse anunciando os livros pré-seleccionados a cada 2 ou 3 meses, de modo público (quase que poderiam ir servindo como recomendações de leitura) e que as nomeações fossem discutidas em Setembro e anunciadas em inícios de Outubro. Era importante que as nomeações figurassem mais directamente na própria programação do Festival, possivelmente com uma mostra de reproduções de pranchas e dos próprios livros integrada na zona comercial (este ano houve uma primeira tentativa nesse sentido, mas não me parece que tenha sido particularmente efectiva).

Continuando nos PNBD, a verdade é que de certa maneira, o impacto dos prémios para os editores continua a ser pequeno, talvez apenas sentido no próprio Amadora BD; por isso, e pelo menos nas categorias de autores portugueses, e sabendo nós o mal que os autores portugueses são remunerados pelo seu trabalho, uma das mais importantes mudanças a meu ver seria a de recompensar os vencedores com mais do que num simples troféu (mas saudamos com jubilo a eliminação dos Grilinhos e Pacóvios, e os novos troféus, que são bem bonitos e elegantes e não parecem saídos de uma medalha comemorativa dos 100 anos dos Bombeiros Voluntários de São-Não-Sei-Onde).

O novo figurino de organização de exposições e de convites a autores, mais articulado com os editores - que estão agora motivados para trazer autores, p.ex. - não isenta o festival de ter os seus próprios convidados, e este ano isso continuou a não se sentir muito, falta ainda um cabeça de cartaz que traga ainda mais gente ao festival, pese embora um bom cartaz deste ano (mas sem nenhuma “mega-estrela”).

3. O melhor e o pior do festival deste ano?
O melhor:
A afluência do público; a disposição nova do espaço, e em particular a área grande antes da zona comercial/autógrafos, que funcionou muito bem, como ponto de encontro, zona de descanso, e de apresentações; de salientar também a boa ideia de fazer apresentações e eventos nessa zona, que contribuiu e muito para animar o espaço do Festival, e em particular a entrega dos prémios de BD lá; algumas exposições fortes e que serviram de grande “âncora” ao festival (Batman 80 Anos, expo do Stan Lee, e algumas outras como a do Andrómeda, do XIII, etc...).
O pior:
O desastre duplo que foram os PNBD, pelo facto de não terem sido anunciadas as nomeações com um mínimo de antecedência (havia pessoas na assistência que não sabiam quem eram os nomeados e que só os descobriram segundos antes de saberem os vencedores, remetendo as nomeações para o esquecimento completo...), e uma das mais desastrosas (diria mesmo pindéricas, de dar vergonha alheia) cerimónias de entrega dos PNBD, possivelmente de sempre. E também algum descuido e falta de atenção em todos os materiais de divulgação que saíram da organização nos dias anteriores ao festival, e durante o evento: posts de Facebook, sinalética, textos de apoio, legendas de exposições, vieram crivados de gralhas e erros. É necessário melhorar o controlo da qualidade desses materiais.

Mas não queria terminar numa nota negativa, porque para mim ficou claro que este ano pode ter funcionado como um virar da página do Amadora BD, se a nova direcção souber capitalizar a boa vontade que gerou junto do público, mas também junto dos profissionais da BD, mercê diga-se, do seu muito bom trabalho, e se souber melhorar aqueles aspectos que correram pior este ano. Queria dar os meus parabéns a todos os envolvidos, e em particular aqueles com quem tive mais contacto, a Lígia Macedo, nova directora, e ao Hugo Valente, da produção. Esta foi a melhor edição do Festival Amadora BD em MUITOS anos, e devemos celebrar isso.

(fotografias/caricaturas disponibilizadas pelos próprios; clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)

3 comentários:

  1. Boa noite ...e agora a perspectiva de um visitante apreciador de bd ...
    Continua Péssimo ... as exposições pareciam restos ... exceto o espaço Vasco Granja que merecia muito melhor ... ou talvez até um evento ligado á sua pessoa ... visitei para ver se havia melhorias mas ... infeluzmente na minha perspectiva Não ... Que saudades do Antigamente ... deixo um episódio ... durante a entrega do prêmio álbum do Ano ao Luis Louro ... foi presenteado com uma caixa de lápis pois os prémios não estavam prontos no último dia da feira.

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