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15/03/2019

Le Storie: Chanbara - El Camino del Samurai

Confirmação...



Volto a Le Storie e sou obrigado a reafirmar o que escrevi há menos de um mês: 'diversidade' é o mote desta (magnífica) colecção da Bonelli.
Chanbara, como o sub-título deixa intuir, decorre no Japão feudal tradicional e compila duas histórias de vingança.
Aventura pura, com as emoções como pano de fundo, esta é mais uma inflexão - ou apenas mais uma proposta, curiosamente uma das suas primeiras propostas - numa colecção de relatos independentes, sem qualquer outro critério que não a qualidade.
De comum às duas narrativas de Roberto Recchioni - sim, o mesmo do excelente Dylan Dog: Mater Morbi - há apenas Ichi, um velho cego, mais sábio do que aparenta, mais forte e ágil do que o aspecto físico decadente e a idade deixam antecipar, que cria a ponte entre ambas e deixa a vontade de conhecer melhor o seu passado e a sua história. Melhor, a vontade de cohecer melhor este universo que agradará com certeza a quem se sente atraído pela cultura nipónica mas também a quem gosta de uma boa banda desenhada de acção.
Em ambos os relatos - e não se deixem enganar pela presença de Ichi e pela aparente continuidade entre eles, apenas acontecem num mesmo universo narrativo, com a curiosidade de um suicídio sacrificial ser o remate de um e a origem de outro - a vingança é o mote, embora as razões que a fazem desejada variem.
La redención del samurái, começa com a perseguição a um samurai que (aparentemente) não cumpriu a sua missão, mas o seu sacrifício permitirá desvendar males maiores. Quanto a Las flores de la Masacre, desta vez com protagonismo feminino, segue o percurso de uma jovem esposa que passa de vítima de violência doméstica - como diríamos hoje... - a vingadora cruel - e mais ainda.
A primeira é uma história de crescimento pessoal, em nome do bem comum; quanto à segunda, em que impera a individualidade, é uma história de crescimento e superação pessoal, embira possivelmente não pelas melhores razões.
Ichi, surge em ambas pontualmente, como conselheiro e consciência, tentando que a violência, necessária, não extravase os limites do razoável - e, sim, eu sei o quão estranho e perigoso isto soa. Mas, numa época e num meio específico - de senhores feudais (quase) todo-poderosos e de servos, simples criados ou guerreiros qualificados, mas ainda assim meros servos - imperavam o sentido de honra, a coragem e a necessidade de cumprir o dever acima de tudo. Mesmo quando se discordava do senhor, mesmo quando as tarefas eram claramente iníquas.
É esta dualidade entre o que devia ser e o que era necessário fazer que tornaram tão apetecíveis ao moralmente díspar ocidente tantas obras de samurais e o levaram a espelhar essa forma de estar no cinema, na televisão e na banda desenhada.
As duas narrativas aqui reunidas, são mais um exemplo disso. Para além dessa dupla sensação de estranheza/curiosidade, atraem também pela sua legibilidade extrema - o relato avança por si só, com os diálogos reduzidos ao mínimo, com a vertente gráfica a imperar na condução do leitor - e as sucessivas cenas de acção, dinâmicas, intensas, surpreendentes - veja-se em especial o confronto final da segunda história.
O caderno final que fecha mais uma boa edição da Panini espanhola, reproduz um bom lote de esboços de Andrea Accardi - cujo traço é servido por uma ampla paleta de cores, de acordo com os momentos descritos - que permitem descobrir algumas das suas fontes de inspiração e que o seu traço ágil, apesar da sua matriz clássica e a boa reprodução do corpo e do movimento humanos não surge do nada, é atingido com trabalho, treino, tentativa e erro...

Chanbara - El Camino del Samurai
Inclui Le Storie #2 a redenzione del samurai (2012) e #15 i fiori del massacro (2013)
Roberto Recchioni (argumento)
Andrea Accardi (desenho)
Stefano Simeone e Luca Bertelè (cores)
Panini
Espanha, 28 de Fevereiro de 2019
195 x 259 mm (deluxe), 256 p., cor, capa dura
22,00 € (cada)

(pranchas da edição original italiana; clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

6 comentários:

  1. Só conhecendo da Bonelli o que foi ultimamente publicado por aqui (basicamente, coleção Bonelli e Tex), gostava mais destes "La Storie" na referida coleção Aleph do que o Dylan Dog.

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    Respostas
    1. E porque não Le Storie E Dylan Dog? ;)
      O Velho que lê, tem duas histórias magníficas...
      Boas leituras!

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    2. Obviamente numa mera opinião pessoal, Dylan Dog não me atraiu grande coisa.
      Acredito naturalmente que os editores pensem que uma personagem mítica seja mais atractiva para uma nova coleção. Quanto mais não seja, como motivo do seu lançamento.
      E se isso se confirmar e a coleção encontrar "pernas para andar", à partida ficamos todos a ganhar.

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  2. É uma pena que a linha "Le Storie" vá provavelmente ser cancelada (se é que não foi já?).

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  3. Para já Le Storie ainda continua a ser publicada... em Abril sairá o número 79:
    https://www.sergiobonelli.it/le-storie/2019/02/27/albo/china-song-1-sulla-via-della-seta-1004303/

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