Os anos recentes têm trazido muitas surpresas aos leitores de BD.
Jardim dos Espectros é mais uma, em português.
É uma surpresa pela qualidade do traço - a que me parece que a
edição não faz completa justiça - e pela planificação variada
que consegue transmitir dinamismo e ritmo a uma narrativa com muito
de declamativo.
É uma surpresa, igualmente, pelo tom profundo que assume, numa
divagação - que se adivinha (em parte?) sentida - sobre a morte, a
culpa, a fuga, o medo, a contrição e a busca de perdão. Uma
narrativa centrada num homem velho que, após muitos anos, regressa
ao local de uma tragédia, acossado pela culpa e pelo desejo de
libertação. Vai embrenhar-se num estranho jardim - aparentemente
habitado pelas almas daqueles que morreram atormentados - e ter
encontros que o ajudarão - ou não - a (re)encontrar o seu rumo.
De forma pausada, demoradamente, Fábio Veras vai conduzir-nos por um
cenário irreal - como irreais são as personagens que o habitam - e
dar-nos a compreender aos poucos o drama interior do protagonista.
Fábio Veras que - e este é o último factor da surpresa - conta
apenas 21 anos e nos oferece um relato tão denso, contido e
emocional, que revela uma grande maturidade, a confirmar em futuras
obras.
Editor, procura-se
Editor, procura-se
Por isso, também, este livro merecia ter tido um trabalho de edição
que não houve.
Nos países em que a banda desenhada tem fortes raízes, o editor é
a pessoa fundamental no desenvolvimento de qualquer obra. É ele que
selecciona ou propõe, orienta os autores, define prazos,
aconselha/impõe alterações, rejeita, acompanha a produção final
e a sua colocação no mercado.
Em Portugal - possivelmente devido à parca produção nacional - é
uma figura quase ausente. Mas que faz falta. [a excepção
- única? - será Mário Freitas, na (sua) Kingpin Books.]
Fábio Veras teria ganho se alguém o tivesse aconselhado a dar maior
uniformidade ao texto escrito, se lhe tivessem dado algumas
indicações quanto à sua fluidez, se lhe tivessem dito para cuidar
graficamente das últimas páginas como cuidou do resto do livro, se
tivesse havido um outro trabalho de impressão…
Isto não retira valor, interesse e qualidade à obra, não é
minimamente razão para deixar de aconselhar uma leitura atenta de
Jardim dos Espectros. Mas faz pensar que poderia ter atingido um
outro patamar...
Jardim
dos Espectros
Fábio
Veras
Escorpião
Azul
Portugal,
Maio de 2018
155
x 230 mm, 64 p., pb, capa mole com badanas
11,00
€
(imagens
disponibilizadas pela editora;
clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)


Bom traço sem dúvida, a proliferação de BD, parece que também levanta novos valores que em outros tempos talvez não saíssem do anonimato, uma promessa (aqui já confirmada) de um talento nacional
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
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ResponderEliminarPedro,
ResponderEliminara questão do editor é uma questão que se prende com muitos factores.
Todos os livros que editei foram na Kingpin Books e há uma coisa que é fundamental para se lidar com um editor como o Mário Freitas e o contexto da bd nacional não o facilita - o nosso equilíbrio emocional/racional.
Os artistas muitas vezes pensam que para contar algo, num processo longo, preferem contar algo e serem autores a 100% do livro - vou contar a MINHA história, da MINHA maneira. A introdução de um argumentista é complicada e um editor interventivo não será menos.
Vou dar-te um exemplo claro, que penso ajudar a todos os que vão ler este artigo.
(não vou dizer a que livros correspondem porque é irrelevante)
Escrevi um argumento e a certa altura, o Mário disse-me que efectivamente o livro não estava a funcionar como pretendido. Tivemos de repensar, analisar e ele teve uma ideia para que a história funcionasse - colocou a ideia em papel e foi introduzida no livro.
No final do processo, o livro ficou muitíssimo melhor, mas naturalmente eu como autor tive colocar o meu lado racional por cima do emocional, para perceber isso mesmo - eu sou engenheiro de formação e se calhar é mais fácil para mim, do que para um ilustrador - estou a brincar, não faço ideia.
Já noutro caso, escrevi o livro todo e o Mário disse-me que estava muito bem estruturado e que tinha gostado muito. No entanto, o trabalho editorial foi feito até ao livro ir para o forno.
Para mim isto torna-se um desafio. Surpreender alguém que respeito (mesmo sendo muito amigo). Quando o livro é finalmente editado, é efectivamente um livro da Kingpin Books e um filho meu e do Mário.
Isto tudo para mostrar que sem termos uma indústria e os autores a ganharem mais pelos livros, o processo editorial terá de ser feito de grandes equilíbrios, muitas vezes difíceis de conseguir. Se a maior parte dos livros editados são feitos por ilustradores, juntar um editor à equação, se não for algo feito de forma muito equilibrada, poderá diminuir os livros editados em Portugal.
Para finalizar, o livro que referiste, tal como no ano passado o “No Caderno da Tangerina” foram livros que necessitavam de um editor ou que se tivesse um editor, poderiam não ter sido sequer editados?
Estou naturalmente a falar de um editor interveniente, que discute narrativa, soluções visuais, faz layouts juntamente com os artistas - porque estes livros tiveram editores que só por terem descoberto estes artistas já fizeram um bom trabalho.
Editores mais interventivos poderão diminuir o nº de ilustradores que estarão disponíveis para os aturar e com isso a produção de autores portugueses ser ainda menor?
Esta é a grande questão. E neste momento, embora tenhamos um mercado em reboliço se há coisa que o público não está interessado é no livro do autor português que custa 14€ e tem 80 páginas, enquanto lado tem dois do Batman pelo mesmo preço e mais de 200 páginas.
Essa é uma questão muito importante, e o comentário do Fernando Dórdio muito interesssante. De facto ter um editor a dar o que podem parecer num dado momento "lições" (de português, de narrativa, de...) pode ser cansativo, mesmo que o objetivos último seja uma obra melhor. Isto porque o que para um é "estilo" para outro é "problema".
ResponderEliminarMas acho o trabalho de edição fundamental, e tive exatamente a mesma opinião do Pedro Cleto ao ler este livro. E, na verdade, muitos da Escorpião Azul, sem desmerecer a voz que dá aos autores naquilo que seria, noutros tempos, o papel de fanzines.
Mas há também aqui uma questão cultural a ter em conta. O mesmo não é (tão) verdade no universo anglófono, por exemplo, e não é só nas "Artes". Sendo biólogo de formação já tive, quer textos científicos, quer de ficção, corrigidos (e por vezes drasticamente mudados) por editores que, ou nem me pediram licença, ou disseram que não publicavam se não fizesse as alterações. Confesso que há alturas em que me custa mais do que outras, mas faz parte do processo.
E, claro, para além da disponibilidade/personalidade de cada um, pode também depender de fatores como a idade, um jovem autor a começar pode achar ter mais a ganhar com este processo de quase "mentoring", por exemplo. Nalguns casos penso que seria útil, mas mais importante é as obras sairem, e os autores terem condições para evoluir.
Como editor, diria que a minha atitude é a de sempre que possível ser o menos interventivo possível, e reservar o grosso da minha "edição" para os textos. isto porque é notório que os pedidos de mudanças de desenho, redesenhar vinhetas, omitir coisas, tendem a ser menos bem-vindos do que os de texto. Por várias razões, desde questões de timings e calendários e lançamentos, até àquela que me parece ser a questão mais importante todas, que eu definiria como sendo "mas por que raio me vou estar a chatear a fazer mudanças a uma coisa minha por 300€ de adiantamentos?", que é uma questão que eu entendo perfeitamente.
ResponderEliminarMesmo no melhor dos cenários, o de um livro vender, p.ex. 1500 exemplares em 2 ou 3 anos (que é o máximo "normal" que um álbum pode ter em portugal na maioria dos casos), quanto é que o(s) autore(s) vão receber? 1500€? 2000€? 2500€? Isso remunera meses de trabalho?
O que nós temos que distinguir mesmo é duas categorias de edição de livros de autores portugueses: o do livro que nos vem ter às mãos mais ou menos completo, e sobre o qual é difícil fazer demasiadas intervenções (porque muitas vezes o autor pode pura e simplesmente desistir, ou levar o livro para outra editora), e o do projecto que é originado pelo editor, que junta o argumentista e o artista e vai acompanhando o processo de criação do livro e fazendo sugestões à medida. O segundo caso tende a ser bastante raro no nosso mercado, e muitos desses projectos acabam em nada,