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23/10/2017

Ferri e Conrad: “Trabalhar com Astérix é um grande privilégio”


Antecipando o lançamento do novo álbum, “Astérix e a Transitálica”, disponibilizado ontem simultaneamente em 25 países, entre os quais Portugal, na passada segunda-feira, Jean-Yves Ferri e Didier Conrad estiveram em Lisboa para o promoverem.
Afáveis, disponíveis, demonstraram um enorme profissionalismo e, mais do que isso, um profundo conhecimento de Astérix, das aventuras anteriores, da sua galeria de personagens, dos seus mecanismos. E também a sua admiração pela série que agora assinam, o que transformou a entrevista original quase numa conversa entre fãs do pequeno guerreiro gaulês.

A chegada de Ferri a Astérix não cumpriu um sonho de criança nem um apelo financeiro. “Nem sequer era algo que desejava, o tipo de humor não era propriamente o meu”, afiança o argumentista, “mas houve bastante pressão por parte do editor para eu apresentar um projecto e acabei por o fazer”. E acrescenta: “era a ideia base dos Pictos, gostaram e infelizmente acabei por ser escolhido” com a boa disposição que espelha nos álbuns e esteve presente durante toda a conversa, deixando por vezes a dúvida se falava a sério ou não. Como quando diz que, se tivesse podido escolher qualquer série para retomar, “talvez escolhesse Tintin, porque está mais próximo dos meus interesses”.
“No início não fiquei muito entusiasmado, porque não era algo que eu tivesse procurado e acabou por ser, antes do mais, um grande desafio. Trabalhar com uma série que admiras e com a qual cresceste é um privilégio”. A acrescentar a isso, “há a dimensão que Astérix tem, que permite falares ao mesmo tempo para muita gente em muitos países”.
Conrad, o desenhador entra na conversa: “a pressão inicial era enorme, mas após três álbuns já estamos mais descontraídos, já conseguimos relativizá-la. Agora, já me concentro mais no álbum, nas personagens, sem estar tão preso aos modelos que existem mas não são para copiar”.
Os dois concordam que existe ‘o’ Astérix de Goscinny e Uderzo, e ‘outro’ só deste último, mas ainda é cedo para “o Astérix de Ferri e Conrad”, diz o escritor. “Vamos precisar talvez de uma dezena de álbuns para se poderem identificar diferenças significativas”. E acrescenta com uma gargalhada: “vamos editá-los todos em 2018!”
Conrad ajunta: “temos de ter algum espaço de manobra e algum lastro para definirmos a nossa personalidade. Citar-nos a nós próprios, como já fizemos neste álbum, por exemplo”.
Não há uma fórmula para escrever um álbum. Ferri revela que “há ideias, gags que vão surgindo. Demasiadas até! (risos) Mas o tema só é escolhido quando a junção de diferentes aspectos proporciona um conjunto coerente que pode ser desenvolvido em 44 páginas”. Depois “há reuniões com a editora e com Uderzo, mas é preciso que eu sinta a história para a poder escrever e que o Conrad a sinta para a poder desenhar”. E este último completa: “se não for assim, por muito divertida ou original que seja, não irá funcionar”.
E prossegue “actualmente, com a prática que ganhámos, os papéis estão mais definidos. As competências dos intervenientes no processo são diferentes. Nós desenhamos e escrevemos, a editora edita, Uderzo tem uma palavra final e conselhos a dar como criador e pela sua experiência. Mas nós próprios já estamos mais confiantes no nosso trabalho e imbuídos do espírito de Astérix”.
“Astérix e a Transitálica”, inicialmente, “passava por levar os gauleses à Sicília, depois alargou-se à Península Itálica e finalmente assentou na ideia de uma corrida”, recorda Ferri.
“O facto de os pais de Uderzo terem nascido em Itália não foi preponderante, mas sabíamos que estávamos mortos se ele não reconhecesse a Itália que íamos mostrar!” diz com um sorriso nos lábios. “Felizmente isso não aconteceu”.
Como habitualmente, o novo álbum apresenta aspectos naturais e arquitectónicos de Itália, bem como personalidades locais do desporto, arte e política, “que nem sempre são fáceis de escolher, pois têm de ser suficientemente conhecidos para os leitores os poderem identificar”.
“O acto criativo não pode ser apressado. O argumento estava pronto em Março de 2016”, a planificação foi completada em Junho e depois foi cerca de “um ano para o desenhar”. Por isso, “com um Astérix a cada dois anos, dificilmente pegaria agora noutro projecto”, diz Ferri, “a não ser que fosse algo muito pessoal”.
Crítica e leitores acolheram bem os álbuns anteriores da dupla - “Astérix entre os Pictos” e “O Papiro de César” - talvez porque, afiança Ferri “temos tentado manter a coerência de Astérix. É um universo estabelecido e bem conhecido que não podemos alterar profundamente de uma só vez, para não o descaracterizarmos. A evolução terá que acontecer pouco a pouco”.
Conrad reconhece: “Diria que temos de inovar pelo menos 10 % em cada álbum, mas não podemos ultrapassar os 25 %. O universo de Astérix é algo extremamente bem feito. É um clássico que foi crescendo e actualizando, mas sempre com situações e personagens bem definidas”.
“No entanto”, lembra Ferri, evocando a bibliografia da série, “Goscinny e Uderzo foram fazendo mudanças ao longo do tempo. Panoramix, por exemplo, foi-se tornando mais sério e ‘institucional’ com o passar dos álbuns”. “E o Astérix inicial também era mais truculento e intriguista, mas acabou por assumir uma postura mais séria” complementa Conrad, “para servir de contraponto a Obélix, uma criança grande que foi ganhando protagonismo”.
Aliás, reforça Ferri, “o maior destaque que ele tem neste álbum, em que é o condutor da quadriga gaulesa, deixando a Astérix o papel de co-piloto, tem a ver com a minha vontade de o mudar um pouco. Dar-lhe mais importância permite outros desenvolvimentos, até em termos de humor”. Esse é um caminho que “poderemos utilizar”, diz Conrad, “mas nunca de forma sistemática”.
Hesitam quando se pede para citarem o seu Astérix preferido. Conrad, adianta uma ideia forte: “a nossa geração escolhe um dos dez primeiros. Numa série com estas características, quase sempre o favorito está entre os três primeiros livros que leste. Há muitos leitores mais jovens que citam os que Uderzo criou. São os álbuns do seu tempo”. Mas acaba por confessar que gosta muito de “Astérix e Cleópatra”. Já Ferri prefere “Astérix Legionário”, mas ambos concordam quanto à personagem preferida: “o peixeiro Ordemalfabetix, que proporciona gags muito divertidos!”
Relativamente à capa, Conrad reconhece algumas semelhanças com a de “A Volta à Gália: “há elementos comuns, nomeadamente a quadriga, a posição nela de Astérix e Obélix, é indiscutível. Mas a ilustração que fiz é quase um resumo da história. Astérix e Obélix vão à frente de uma corrida, surgem outras personagens importantes, aparece o mapa de Itália em fundo…” E questionado se espera vendê-la por 1,4 milhões de euros, como aconteceu esta semana com o original de Uderzo, responde: “daqui a muitos anos espero que valha mais!” E Ferri acrescenta de imediato: “E que o argumentista tenha direito a metade!”
Uma das surpresas da Transitálica é a presença de uma dupla de lusitanos entre os participantes na corrida. Ferri explica que “é importante ter personagens diferentes, com características próprias que, mesmo sendo secundárias podem trazer aspectos novos ao relato”. E, perante a questão recorrente e antiga se um dia receberemos Astérix e Obélix na Lusitânia, surge a inevitável resposta politicamente correcta: “porque não? Podia ser interessante…”

(versão integral do texto publicado no Jornal de Notícias de 20 de Outubro de 2017)

1 comentário:

  1. Já acabei de ler a obra e devo dizer que é fantástica, muito melhor humoristicamente que é o que eu aprecio mais; tenho pena que o Ideiafix já não tenha aquele brilho nos olhos que Uderzo lhe ponha, vou ter também saudades do traço das suas mulheres e outros pormenores, mas em soma muito bom trabalho da nova dupla.
    «spoiler»
    Só para quem já leu - Adorei no final a taça ser entregue pelos gregos para os Lusitanos numa aventura de heróis franceses, uma clara referencia a esses dois euros da nossa pátria; se bem que fico com um sentimento misto sobre a maneira como fomos retratados.

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