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10/07/2017

Traço de Giz (III)

Leituras
(introdução publicada na edição da colecção Novela Gráfica 2017)

Tu viste e ouviste o mesmo que eu, mas só que interpretamos os acontecimentos de modo diferente.
S.S. Van Dine, The Kidnap Murder Case, citado por Miguelanxo Prado in Traço de Giz

Quantas histórias tem um livro?
A resposta simplista é: uma, a que o autor escreveu (e desenhou, no caso de uma BD).
A mais extensa, preconiza que são “tantas quantas os leitores que o lerem”.
A resposta verdadeira - se num caso destes há verdade - ficará inevitavelmente entre as duas, mais próxima da quantidade do que da unidade.

O que somos, o que fazemos, o que pensamos, a forma como crescemos, a função que exercemos, as relações que estabelecemos, o local onde vivemos (mesmo no mundo global que é o de hoje), condicionam-nos enquanto leitores.
A nossa capacidade de interpretação, as influências exteriores a que damos - ou não - ouvidos, o treino do nosso olhar, as nossas capacidades de síntese e de análise, são filtros - inúmeros filtros… - através dos quais passa o que o autor expôs e, inevitavelmente, condicionam o que - e como - nós o lemos.

Traço de Giz, já na altura da sua publicação era uma obra inusitada na bibliografia de Prado, e continua a sê-lo, na companhia de uns poucos títulos mais: O Manancial da Noite, De Profundis, Ardálen
As premissas que até aí - e depois também - imperavam nos livros do autor galego, uma profunda crítica social, um olhar implacável sobre a idiotice humana, um sentido de humor satírico e mordaz e também algum desencanto, estão praticamente ausentes de Traço de Giz. E se os seres humanos – e o desencanto… - continuam a ser vistos à lupa pelo autor, agora primam a ternura, a poesia e, quase, o romantismo, a par da teimosia, da prepotência e da (in)capacidade de relacionamento, assumidos - ou não - pelos poucos protagonistas que o acaso reúne simultaneamente numa ilha minúscula no meio da imensidão atlântica - o tal ‘traço de giz’ sobre o azul oceânico…

Voltei a (re)ler Traço de Giz, agora, para a escrita destes linhas. Regressei a um livro que me marcou profundamente aquando da sua edição original - em 1993, há já quase 25 anos - e a que regressei com alguma regularidade.
Vez após vez, leitura após leitura, sempre com algumas diferenças - motivadas pelo momento, pelo avanço do tempo, pelas (novas) circunstâncias pessoais… - (re)encontrei um drama trágico, uma história profundamente humana de sucessivos desencontros, em que os protagonistas parecem nunca estar em sintonia - apesar do que parece atraí-los. Uma história centrada num triângulo (não) amoroso (mas de desejo), em que se podem contar curiosas cinco pontas.
Esta última frase soa estranha, surpreendente, enigmática, eu sei, mas serão essas (algum)as (das) sensações que perseguirão muitos dos leitores de Traço de Giz após a (sua) leitura do livro.
Sensações que, terminada a quase centena de páginas, lido o posfácio do autor, obrigarão muitos a regressar ao início, a nova leitura - mais atenta? mais cirúrgica? mais esmiuçada? - à procura das incongruências que Prado (conscientemente) introduziu, dos delírios (?) que as personagens sofreram, dos pormenores que faltaram na primeira vez, das pistas baralhadas que passaram despercebidas - que foram distorcidas pelos (seus) filtros…
Não me atrevo a escrever mais, não quero apontar caminhos, quero que os leitores desfrutem, descobrindo-os por si, encontrando os seus.
O livro foi concebido assim - dúbio? fantástico? inquietante? - e seria abusivo da minha parte, de alguma forma querer limitar o que Prado deixou tão em aberto…
… como desafio e estímulo à capacidade de leitura de cada leitor.

Traço de Giz
Miguelanxo Prado
Levoir/Público
Portugal, 7 de Julho de 2017
104 p., cor, capa dura
9,99 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

2 comentários:

  1. Nunca tinha lido Pedro e gostei muito, e não fosse o post sobre a curiosidade do muro não tinha voltado ao inicio para ver a mensagem do muro...Uma ilha estranha, personagens quase hitchcockianas, lebrei-me do Parque Chas também em estilo "twilight zone". É daqueles para reler. Parabéns pela introdução :)

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    Respostas
    1. Obrigado Homem do Leme.
      É um dos 'meus' livros...
      E depois diz o que achaste do Davodeau!
      Boas leituras!

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