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06/02/2017

Astronauta: Assimetria

Um risco mais




A retoma, pelo espaço de um álbum, de uma personagem carismática da BD, tem sempre vários riscos associados, um deles, raramente referenciado, o desejo – do editor, do autor, do público… não obrigatoriamente por esta ordem – de que essa experiência, que era para ser una, tenha continuidade.
O Astronauta, de Danilo Beyruth, é um exemplo.
[Como o podia ser, no mesmo contexto editorial, a Turma da Mônica dos irmãos Vítor e Lu Cafaggi…]
Tudo depende, numa primeira análise, do objectivo, do alcance, da dimensão da retoma mas, na verdade, não serão muitos os editores dispostos a torcer o pescoço a uma provável ‘galinha dos ovos de ouro’.
Depois do sucesso de Astronauta: Magnetar, que teve, inclusive, edição em vários países, ‘naturalmente’ a MSP através de Sidney Gusman, editor da colecção Graphic MSP, e o autor chegaram a acordo para novo(s) capítulo(s), primeiro Singularidade, e, agora, Assimetria.
Só que, quando muitos apostavam na (tradicional e supostamente perfeita) trilogia, eis que o autor baralha e volta a dar e deixa tantos caminhos (espaciais…) para explorar, que dificilmente este será o último encontro com esta versão mais adulta do Astronauta ‘redondinho’, que volta e meia encontrávamos nas páginas das revistas da turma da Mônica.
De comum – já o sabem os leitores – a sua função, explorador espacial ao serviço da agência Brasa, e o peso do passado devido à relação desfeita com Ritinha – por quem nunca se decidiu quando em cima da mesa estavam ela ou a sua carreira, e o tom (relativamente) adulto de ambas as versões.
A separá-los, para além do óbvio grafismo, a ausência de humor e o tom mais sério na criação de Beyruth.
Na conjugação destas (e outras) semelhanças e diferenças, bem equilibradas entre a homenagem na continuidade e a inovação que corta com o passado, regressa em Assimetria o protagonista solitário, com tendência para a introspecção, para o reviver de situações e para o questionar das opções passadas – que são sempre as melhores (são?), porque foram as assumidas, quanto mais não fosse por inacção…
Só que em BD – mais a mais de ficção-científica – nunca devemos dizer ‘desta água o herói não beberá’ e eis que desta vez, durante uma investigação (aparentemente) de rotina em Saturno, o Astronauta se vê face a uma outra versão de si mesmo, cujas opções passadas foram díspares.
Para lá da estranheza do encontro e da ameaça latente que Saturno ocultava, esta conjugação vai obrigar o Astronauta ‘que conhecemos’ a lidar com consequências de uma escolha concretizada que não fez, ao mesmo tempo que descobre o resultado e consequências de algumas das suas acções passadas…
Combinando cenas de acção com outras mais introspectivas, sem nunca assumir apenas um dos registos, com um grafismo duro e uma planificação variada, rica na mudança de pontos de vista e com algumas opções muito interessantes e, mais uma vez, excelentes cores, Assimetria volta a surpreender quem pensava já conhecer este (renovado) Astronauta e, pelo evidente final em aberto, promete que ele ainda irá regressar – pelo menos mais uma vez…

Astronauta: Assimetria
Colecção Graphic MSP
Danilo Beyruth (argumento e desenho)
Chris Peter (cor)
Panini Comics
Brasil, Dezembro de 2016
190 x 275 mm, 96 p., cor
Capa dura, R$ 36,90
Capa mole, R$ 26,90

(imagens disponibilizados online pelo editor; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

11 comentários:

  1. Já desisti de tentar encontrar estas edições em banca. É pena, mas a (para mim) sua distribuição tem sido pouco menos que nula.

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    Respostas
    1. Anónimo6/2/17 16:09

      Digo o mesmo. Tenho interesse, mas não o suficiente para estar a correr atrás.

      Filipe Simões

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    2. Infelizmente a distribuição das Graphic MSP não foi famosa - foi igual ao habitual das revistas Panini do Brasil - e até já foi suspensa...
      Quanto a este livro, veio directamente do Brasil! ;)
      Boas leituras!

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    3. Anónimo6/2/17 22:02

      Boas Pedro,

      Como fazes para comprar estas edições diretamente do Brasil? Estava muito interessado em comprar a edição brasileira de "O Escultor" de Scott Mccloud, tentei pela Casa da Bd mas já desisti...

      Melhores cumprimentos

      Luís Fernandes

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    4. Peço a amigos que vêm a Portugal, Luís.
      Por cá, a única alternativa que conheço é realmente A Casa da BD, mas por vezes é um serviço demorado...
      Boas leituras!

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    5. Anónimo7/2/17 23:38

      Podes adquirir todas as edições Panini made in Brasil na Livraria Cultura.
      Tenho todos as Graphic Novels do MSP e compro os meus lá.

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    6. Anónimo9/2/17 14:52

      Fiz o que me aconselhou "Anónimo", e já encomendei o livro.
      Quanto tempo costuma demorar a receber?
      Obrigado pela dica.

      Melhores cumprimentos

      Luís Fernandes

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    7. Anónimo9/2/17 16:02

      O ultimo que mandei vir (SUPERCROOKS-O Assalto de Mark Millar) foi colocado em S.Paulo a 23.01 e chegou ao Porto dia 06.02.
      Podes sempre acompanhar o estado da encomenda através do tracking dos CTT os dos correios do Brasil que estão sempre sincronizados.
      Cumps
      Joao Alves

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  2. Eu creio que este volume não foi ainda distribuído cá, mas p.ex. no outro dia encontrei na papelaria a que às vezes vou (perto do Corte Ingles, na Ant. Augusto Aguiar) O Louco, ao preço excelente de c. 9€

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    Respostas
    1. Não, José Freitas, este ainda não foi distribuído cá. Aliás só saiu no Brasil no fim de 2016.
      9 € é o (bom) preço a que foram distribuídas cá estas edições.
      Boas leituras!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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