Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

10/01/2017

O Testamento de William S.

Cansaço



Menos de um mês após a edição francófona e como uma das primeiras traduções da obra, a ASA disponibilizou a tempo do natal o novo álbum de Blake e Mortimer.
De regresso, estão Yves Sente, no argumento, e Andre Juillard, no desenho, uma dupla que assina aqui já o seu sétimo álbum na série e que aparentemente denota algum cansaço ou falta de ideias.

Nele, o professor e cientista Philip Mortimer e o capitão Blake, dos serviços secretos britânicos, terão de descobrir quem foi realmente William Shakespeare – cuja origem, nesta ficção e na realidade, está envolta em alguma controvérsia - ao serem apanhados entre duas sociedades, uma que defende o grande dramaturgo inglês e outra que afirma que a sua obra teve vários  criadores e que não foi feita por um só homem. Em paralelo, Blake, investiga uma série de roubos violentos cometidos em Londres por jovens (de boas famílias?), numa história que decorre entre Inglaterra e Itália e onde uma vez mais – embora de forma invulgar - se verão a braços com o seu velho inimigo, o coronel Olrik.
Numa colagem (frustrada) ao estilo narrativo e ao traço de Jacobs, Sente e Juillard tentam mimetizar o estilo original. O texto é abundante, redundante e às vezes roça até o ridículo (a título de exemplo veja-se a última vinheta da página 9) e sustenta um relato que, partindo de uma polémica histórica, procura respostas encontradas de forma demasiado simplista e pouco credível. A introdução, de novo, de uma personagem feminina como co-protagonista, revela-se pouco consistente e nada adianta ao enredo ou ao universo da série.
Quanto ao desenho, pretende ser clássico e sóbrio, mas a verdade é que Juillard se mostra francamente desinspirado, com poses demasiado estáticas, figuras humana francamente falhadas e pouco dinamismo, o que acaba por tornar a leitura arrastada e cansativa.
Desta forma, reconhecendo que Blake e Mortimer continua a ser um best-seller e, consequentemente, um negócio irrecusável para editores e autores, questiono se, para além dos saudosistas e dos que compram por hábito, haverá muitos leitores – em especial recentes - que ainda sejam atraídos por As Aventuras de Blake e Mortimer segundo os personagens de Edgar P. Jacobs

O Testamento de William S.
As Aventuras de Blake e Mortimer segundo os personagens de Edgar P. Jacobs
Yves Sente (argumento)
André Juillard (desenho)
Madeleine Demille (cor)
ASA
Portugal, Dezembro de 2016
311 x 237 mm, 64 p., cor, capa dura
ISBN: 9789892335643
15,90 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

15 comentários:

  1. Paulo Pereira10/1/17 18:13

    Boa noite, com um erro grave, na pag.7 em cima á esq. O nariz de um dos personagens desaparece. Com tanto aparato parece que não se compreende tal coisa, nem de amadores.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tem toda a razão, Paulo.
      É mais um exemplo do fraco desempenho de Juillard neste livro.
      Boas leituras!

      Eliminar
  2. Confesso que não entendo esta bizarra obsessão, por parte dos editores franco-belgas, em "reanimar" (como se de um cadáver se tratasse) o universo de Jacobs por via desta emulação de estilo. Ora, como se sabe, só o verdadeiro Jacobs poderia fazer histórias "à Jacobs".

    Faria (na minha opinião) muito mais sentido regressar ao universo "Jacobino" usando o modelo do universo editorial americano. Ou seja: as mesmas personagens, mas com novos autores e novos estilos.
    Goste-se - ou não - é inegável que a solução usada pela Marvel ou pela DC, ao longo de décadas, tem permitido manter as personagens dos "comics" com uma abordagem fresca, mantendo ao mesmo tempo intacto o material-base. Os "Vingadores" continuam a combater o crime há cerca de 50 anos e as BDs originais do Stan Lee e do Jack Kirby continuam a manter a sua qualidade original e o seu valor estético, sem que isso interfira com as histórias mais recentes e vice-versa.
    Já estes actuais exercícios "Blakemortimerianos" parecem ter mais de necromância ou de distúrbio obsessivo-compulsivo criativo do que outra coisa (O Olrik ainda dura???? - By Jove!!):P

    E de facto... Aquele sorriso enigmático do Blake... "Vamos todos deitar-nos" LOL

    ResponderEliminar
  3. Admito que comprei apenas por comprar, abri, li uma página e foi para a estante. É inacreditável que se pretenda insistir num estilo, que era único, com massa humana capaz de fazer explodir um personagem mais virado para o século XXI. Como se as coisas não evoluíssem.

    ResponderEliminar
  4. Tal como o Pedro refere, continua a ser um best seller e enquanto vender 100, 200, 300 mil exemplares vão continuar a publicar por mais negativas que sejam a criticas. A solução seria deixar de comprar. Enquanto comprarem, mesmo que seja para não ler e arrumar na estante, vamos continuar a ter albuns de Blake & Mortimer de fraca qualidade.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Exacto Eskorpiao77,
      É negócio. É best-seller. Vende.
      É preciso é ter mais cuidado com a escolha das equipas, renová-las, monitorizar o seu trabalho...
      Nem todos os novos Blake e Mortymer são maus, a maioria lêem-se bem, mas este é especialmente fraco...
      Boas leituras!

      Eliminar
    2. Claro que esses 100mil são no mercado francófono. Mas será que vende assim tão bem no mercado português para que na verdade, justifique a sua tradução e edição?
      Poderá também haver algum contrato entre a ASA e o editor francês que obrigue à sua edição.

      Eu tinha duas coleções Blake e Mortimer. Ambas edições conjuntas com jornais. Fiz a segunda devido às suas capas de luxo e a primeira seguiu como oferta de natal para familiares. Não comprei mais nenhum para além dessas coleções.

      Eliminar
  5. Tenho todas as edições de de Blake e mortimer.

    ResponderEliminar
  6. Embora considere algumas das novas histórias melhores que algumas de Jacobs esta, de fato,é fraca e decepciona. Não pelo desenho,que é bom, mas pelo argumento.

    ResponderEliminar
  7. A Trilogia do santuário de godwana é melhor que algumas das histórias de Jacobs.

    ResponderEliminar
  8. A Trilogia o santuário de godwana é melhor que muitas das histórias de Jacobs.

    ResponderEliminar
  9. Repito o termo "cansaço" acima de tudo pelo argumento embora concorde com os reparos ao desenho.
    Para mim o que falha nos novos albúns de BM é a inovação tecnologica que Jacobs sabia introduzir e aliciar os leitores, tendo em conta a altura em que foram criados. Mesmo relendo álbuns com 50 anos ficamos ainda supreendidos com a qualidade do argumento misturando mistério e ficção-cientifica. Nisto os sucessores falharam redondamente.
    Sobre o tipo de desenho, sinceramente espero que nunca mudem. Adoro!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Está história lembra o juramento dos cinco lords. A nível narrativo. São duas espécies de histórias de Agatha cristhie.
      Fogem ao tópico dominante na série. Não obstante, gosto das histórias dos novos autores. Umas mais,a conspiração voronov..., outras menos, por exemplo,a sequela da marca amarelo,cujo título,de momento, não me recordo. Apesar dos pontos menos fortes, da série atual,espero que esta continue. Bm são um produto intemporal.

      Eliminar
  10. Sobre mistério e ficção científica, releia os sarcófagos do sexto continente...

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...