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23/12/2016

L'Appel



“Tu não vais compreender. É normal. Precisas de tempo.
Trata-se da minha vida. Por isso tenho a certeza que não me vais condenar.
A sociedade em que vivemos é uma balbúrdia de enganos, hipocrisia e injustiças (…)
Felizmente salvei-me. Alá estendeu-me a sua mão!

Começa assim L’Appel, uma história sensível sobre um tema actual: a partida para países árabes de jovens ocidentais ‘de origem’ (seja lá isso o que for, como reforça o argumentista) para se juntarem à jihad, a guerra santa.

A frase que encima este texto, é o início da mensagem deixada por Bênoit, um jovem adulto, como despedida à mãe, Cécille. E prossegue:
Sou com um cego que recuperou a vista. Alguém perdido que reencontrou finalmente o caminho! O órfão a quem oferecem uma verdadeira família.
Chocada, perdida, incrédula – duplamente incrédula perante a situação e no seu ateísmo (em que educou o filho) – aquela mãe solteira agarra-se desesperadamente às últimas palavras daquele vídeo:
Telefono-te em breve. (…) Amo-te, Mamã.
Sem revolta, com um desespero contido, uma solidão aprofundada, Cécile tenta apenas compreender, descobrir os sinais que não viu, saber quem influenciou o filho, seguir os passos que o conduziram para a Síria - tão longe no espaço, tão próxima na actualidade, redobradamente próxima da França que tem visto tantos jovens seguir o mesmo trilho que Bênoit.
Por isso, o livro, sem tentar desculpar ou culpabilizar, sem acusar nem defender, centra-se em Cécile, na sua busca, no mergulho no historial informático de Bênoit, nos contactos com amigos, colegas, professores e até desconhecidos à medida que vão sendo descobertos, no reviver ansioso de memórias, fotos, vídeos caseiros que lhe mostram quem ele foi e dos sinais, dos sintomas, dos momentos que lhe vão desvendando no que o filho se tornou.
Tocante sem ser lamechas, sensível na abordagem, importante na actualidade, deixando mais perguntas do que respostas e uma incomodidade provocada por uma situação que pode afectar qualquer um de nós, L’Appel, traçado de forma contida pelo traço realista de Mermoux (próximo na forma e no estilo do de Davodeau – e leia-se isto como um elogio e não uma acusação) é o livro que fecha – de forma magnífica – o ano de leituras aqui em As Leituras do Pedro, já que os próximos dias serão dedicados às habituais listas de melhores do ano – onde este livro vai com certeza figurar.
L'Appel
Laurent Galandon (argumento)
Dominique Mermoux (desenho)
Glánat
França, Novembro de 2016
200 x 265 mm, 128 p., pb, cinza, sépia, capa dura
ISBN : 978-2-344-01071-6
17.50 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as apreciar em toda a sua extensão)

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