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24/11/2016

O Astrágalo











Ou como um pequeno ossinho pode influenciar toda uma vida…

O Astrágalo é a adaptação do primeiro romance (homónimo) de Albertine Sarrazin, lançado originalmente em 1965. Romance autobiográfico, sublinhe-se, pré-Maio de 68, espelho da vida de uma jovem já “escandalosamente livre’, como se lê na contracapa desta edição.

Mas o astrágalo é também, segundo a Infopédia, o ‘osso situado na parte média do tarso, que se articula com a tíbia e o perónio de um lado, e com o calcâneo e o escafóide do outro lado’.

E é exactamente esse osso que Anne (chamemos-lhe assim), a protagonista, fractura, ao saltar o muro da casa de correcção em que está detida, o que a impede de caminhar e continuar a sua fuga. Arrastando-se até à estrada próxima, acaba por ser auxiliada por Julien, ele também com um historial de problemas com a justiça e detenções, no que vai ser o início de uma relação conturbada entre os dois.
Com o agravar da fractura sem tratamento por medo de ser presa no hospital e a necessidade de saltar de esconderijo em esconderijo, dependendo financeira (e emocionalmente) do seu salvador, a jovem vai desenvolver por ele uma relação de paixão/dependência que vai influenciar tudo o que faz, diz e pensa e todos os seus relacionamentos a partir desse momento. Embora, nunca chegue a apagar da sua memória Rolande, a reclusa com quem manteve uma relação durante a prisão, e com quem prometeu encontrar-se um dia em Paris, quando ambas estivessem livres.
O Astrágalo, que conta com um desenho traçado num preto e branco contrastante, que inicialmente se estranha mas que depois se revela especialmente legível e narrativo, consegue transmitir o clima de incerteza que a protagonista vive, os altos e baixos emocionais que os momentos junto de Julien ou as suas longas ausências provocam, a sua incapacidade recorrente de se libertar de quem lhe faz, ao mesmo tempo, tanto bem e tanto mal, assentando essencialmente em sequências quase mudas, e num texto conciso e directo centrada no íntimo da protagonista.
A tudo isso, há que acrescentar o recurso a um tipo de vida pouco recomendável, sem agrado nem satisfação e o temor constante de ser descoberta ou reconhecida e denunciada e de ser reconduzida à prisão, o que a obriga a uma vida quase sempre subterrânea, raras vezes descontraída, muitas vezes falsa e ilusória.
Tudo aquilo que jamais imaginam ou sonham jovens que nem 18 anos têm…

  

O Astrágalo
A partir do romance de Albertine Sarrazin
Anne-Caroline Pandolfo (argumento)
Terkel Rejsberg (desenho)
G. Floy
Portugal, Outubro de 2016
170 x 240 mm, 224 p., pb, capa mole com badanas
13,99 €

(imagens disponibilizados pela editora; clicar nelas para as apreciar em toda a sua extensão)

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