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27/09/2016

O Árabe do Futuro #2










Editado pela Teorema, apenas um ano após o primeiro tomo, aproveitando (?) a actualidade do tema, O Árabe do Futuro #2 foca-se no primeiro ano da vida escolar síria do autor, Riad Sattouf.

O tom é, naturalmente, o mesmo do primeiro volume, Ser Jovem no Médio Oriente (1978-1984), num misto de ternura, sátira e denúncia, só possível porque combina, com mestria narrativa, a par das memórias de infância do autor, o distanciamento, o conhecimento e o tom crítico mais adulto que com a idade adquiriu.
Conjunto de sucessivos momentos quotidianos da vida síria de Sattouf, entre o drama, a rotina e a anedota, este é também um relato com muito de documental, que ilustra à saciedade, as péssimas condições de vida e do ensino na Síria, por muito que o pai de Riad, as tente louvar e defender. Aliás, um dos pontos mais interessantes do livro é a oposição entre o que ele acredita (?) e o que o leitor – pelos olhos de Sattouf – pode ver, mais a mais porque é notório que, muitas vezes, o próprio progenitor – pelo(s) conhecimento(s) que tem – duvida (no mínimo) do que diz.
Outros dois aspectos tornaram-se salientes na minha leitura. Um deles, recorrente ao longo das páginas, é a ‘violência pedagógica’ dos professores de Sattouf – nada que não existisse, por exemplo, no Portugal pré-25 de Abril. O outro, restrito a uma única prancha (página 149), é a descoberta das ‘vozes’ de Tintin, Haddock e restantes companheiros, aquando da primeira leitura ‘completa’ (juntando imagem e texto escrito) dos álbuns de Tintin que acompanharam o autor na sua infância.
Os vários contrastes entre essa vida, que o pequeno Riad tenta integrar e desfrutar para agradar ao pai, apesar da marginalização repetida que sofre de quase todos os ‘seus’ conterrâneos, pelo seu aspecto e filiação diferentes, e o medo constante que por isso o assola, em contraponto com a súbita paz que encontra numa quinzena de férias em França com a família da mãe, noutro dos momentos fortes do livro, ajudam a compreender o que levou à escrita desta obra e vão com certeza balizar o(s) próximo(s) volume(s) de O Árabe do Futuro, compreensivelmente – pela sua qualidade e pela ponte que estabelece com a actualidade - um dos maiores sucessos editoriais em França dos anos recentes.

O Árabe do Futuro #2
Ser jovem no Médio Oriente (1984-1985)
Riad Sattouf
Teorema
Portugal, 27 de Setembro de 2016
170 x 240 mm, 160 p., pb+ 1 ou 2 cores, capa mole com badanas
ISBN - 978-972-47-5095-8
19,90 €


(clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)

9 comentários:

  1. Acredito que grande parte do sucesso derive da tal actualidade. Mas isso não impede que o Riad seja um excelente contador de histórias. Aliás, na procura de informação relativa ao autor, dei com a obra Les Caihers d'Ester (http://livre.fnac.com/a9171235/Riad-Sattouf-Les-cahiers-d-Esther) e... lamento imenso que não haja um editor com coragem de os editar em português.

    Um pequeno exemplo (para quem domine o francês: http://tempsreel.nouvelobs.com/societe/20160617.OBS2887/la-beaute-le-nouvel-episode-des-cahiers-d-esther-de-riad-sattouf.html)

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    1. Óptima proposta mas acho um pouco injusto falar em falta de coragem dos editores portugueses em não editar um livro lançado em França à somente 9 meses e que ainda não foi lançado em mais nenhum país :) Mas sim, é verdade que hoje em dia temos poucos editores virados para o mercado franco-belga e há um filão enorme por explorar.

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    2. Aceitando a possibilidade de ser um pouco injusto com as editoras portuguesas relativamente à tal questão dos nove meses, diria que a Teorema (que eu saiba, sem qualquer tradição na edição de BD) só editou o "Árabe do Futuro", por arrasto da mediatização dos refugiados sírios.

      Como já referi noutro post qualquer, quem quer um negócio sem risco faça uma PPP com o estado.

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    3. Não disse o contrário mas mesmo assim acho que há uma (grande) diferença entre sem risco e risco calculado. Por exemplo, é mais arriscado publicar o arabe do futuro ou Naruto ou Watchmen?

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  2. Um editor sem coragem para editar em Portugues ? Deve ser daqueles que só edita do que gosta de ler antes. Não estamos a falar de batatas e cebolas, meu amigo.

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    1. Quem quer um negócio sem risco faça uma PPP com o estado.

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  3. Não duvido por um momento que se fossem editores e tivessem de suportar os custos inerentes à edição, impressão e distribuição de um livro de BD em Portugal bem como os salários das pessoas que trabalhassem na vossa editora, vocês só iriam publicar obras de grande qualidade e alto risco de sucesso, por isso fico à espera de ver em breve as vossas edições. Já têm um comprador.Cumps.

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    1. Não querendo entrar em polémicas, refiro só que, seja devido aos refugiados, seja devido a algum gosto pessola pela BD, seja porque razão for, fico satisfeito pela Teorema ter editado o livro.

      Aíás, fico satisfeito pela G-Floy, Levoir, Arte de Autor, ASA, etc...
      O que me irrita é as queixas frequentes e os editores começarem uma série e deixarem-na a meio. Ou nem a meio chegarem.

      Já agora, do lado dos compradores, também me irrita as queixas frequentes do preço. Muitas vezes com comparações parvas como seja comparar a quantidade de páginas entre obras e tipos de obras completamente diferentes entre si e os preços que cada um dos editores decidiu colocar.

      Resumindo (minha opinião)
      - O editor é livre de editar o que quiser,
      - O editor decide o preço de acordo com aquilo que na sua opinião/cálculo será a melhor relação preço/quantidade a vender
      - o leitor é livre de comprar ou não
      - toda a actividade económica é um risco com excepção das PPP portuguesas

      nota1) peço desculpa ao Pedro Cleto pela quantidade de posts relativos a este assunto, que na verdade acabam por ser um bocado desvio do tópico "Árabe do Futuro" e que é (obviamente) livre de aceitar ou não os comentários aqui colocados

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    2. Concordo inteiramente com tudo o que disseste. O editor é livre de editar o que quiser e de decidir o formato e preço a que deve editar e, precisamente para evitar deixar obras a meio, percebo perfeitamente que calculem as possiveis vendas antes de editarem. Concordo tambem que risco há sempre, mas não é sempre o mesmo. Publicar Blankets ou Fun Home não é igual em termos de perspectiva de vendas do que Watchmen ou Dark Knight Returns. Eu pessoalmente gostaria imenso de ver todos os volumes de Love & Rockets ou Stray Bullets publicados em português mas percebo que seja demasiado arriscado em termos de vendas.

      As minhas desculpas ao Pedro tambem por esta saudavel ''discussão'' entre dois fans de BD :)

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