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20/09/2016

A Lei da Selva





Corria o ano de 1949 e O Mosquito estreava mais uma banda desenhada, aliás, uma história aos quadradinhos, de Eduardo Teixeira Coelho.
História surpreendente e inovadora, protagonizada (quase) exclusivamente por animais, que por razões diversas se tornou um dos grandes clássicos da BD portuguesa e que agora está disponível (em excelente edição) em álbum.

Hesitei na abordagem a fazer a esta obra e recomecei várias vezes este texto.
Não está em causa a sua qualidade intrínseca, mas pode ser questionada. Como não está em causa a edição de Manuel Caldas, mas pode ser posta em causa.
Passo a tentar explicar.

Mas, antes ainda, proponho um exercício (que contraria tudo aquilo em que acredito no que à leitura de banda desenhada diz respeito): comecem por ‘ler’ apenas os desenhos de Eduardo Teixeira Coelho.
De seguida, leiam apenas o texto de Raul Correia. Vão descobrir duas narrativas diferentes, que por vezes se sobrepõem e repetem e outras recorrentemente divergentes.
Finalmente, leiam o (bem conseguido) ensaio de Domingos Isabelinho, seguido da obra na sua integralidade e compreendam, (re)descubram como desenho e texto se complementam e, juntos, fazem de A Lei da Selva – inovadora e arrojada no seu tempo – um clássico que merece ser lido e conhecido por quem gosta de banda desenhada - e não só para alargar horizontes e conhecer diferentes formas narrativas, longe disso.
Um parêntesis aqui, para referir que A Lei da Selva foi primeiramente desenhada por ET Coelho e só depois o texto – extenso, verborreico e poético - de Raul Correia foi escrito e aposto nas pranchas – por vezes cobrindo parcialmente os desenhos originais, que nem sempre acompanhava -, residindo neste díptico criativo/narrativo as reticências levantadas em relação à obra em si, devido a algum esforço de leitura que ela provoca e que contraria o seu dinamismo gráfico.
Obra vibrante de vida, feita de traço fino e enérgico, explora, revela, mostra como entre os animais funciona bem a lei da selva, como forma primeira e principal de selecção natural e de garantia da perpetuidade das espécies – pelo menos antes da intervenção desastrada do ser humano -, num relato que dá a primazia a sucessivos leões e à sua interacção com outras espécies animais
Quer no desenho animalista, feito a partir de modelos vivos observados no Jardim Zoológico de Lisboa, quer na composição plástica das pranchas, quer no dinamismo de que as impregnou, este é um dos grandes trabalhos de Eduardo Teixeira Coelho, (possivelmente) o mestre dos mestres dos quadradinhos clássicos portugueses.
Quanto à edição de Manuel Caldas, justifica – justifica? – levantar-se uma questão: o rearranjo do texto, que deixou de se sobrepor ao desenho, mas que também foi ajustado de forma a corresponder às imagens a que diz respeito, sendo uma alteração da criação original, deve ser considerada positivamente? A minha resposta é sim, porque melhora a leitura e permite desfrutar integralmente dos desenhos de ETC e espelha um cuidado, hoje natural, mas inexistente aquando da sua criação. Até porque, em nenhum lugar, é afirmado que esta é uma reedição (‘fiel’) do original de Coelho e Correia (e a título de exemplo, veja-se o que foi feito ao texto do segundo na edição espanhola, na revista Chicos, de que Caldas reproduz uma prancha…)
A questão não é nova nem recente – e menos ainda pacífica - e até foi levantada há pouco tempo, a reboque de outra (louvável) reedição: Os 12 de Inglaterra, a propósito da qual convido a lerem o que sobre o assunto escreveu Pedro Moura no seu blog LerBbd.
A restauração do traço de Eduardo Teixeira Coelho, feita a partir de provas originais e das páginas da já citada revista Chicos, apresenta a paixão e a perfeição a que Caldas nos habituou e permite uma leitura mais limpa e próxima do original do desenhador, numa edição de bom formato, que é complementada pelo oportuno ensaio de Isabelinho já referido, pela reprodução das páginas d’O Mosquito em que A Lei da Selva foi publicada a cores, e pela história curta Bodas Índias, igualmente de ETC, até agora inédita em português.
 

Nota final
Sendo uma edição de (obviamente) baixa tiragem, motivada apenas pela paixão de Manuel Caldas pelos quadradinhos, aconselho os interessados a que a encomendem directamente ao editor, através do e-mail mcaldas59@sapo.pt.
Como escrevi nos comentários do texto de divulgação do lançamento, dessa forma o livro chega mais depressa (neles é citado uma entrega em 24 horas!) e assim o editor escusa de entregar mais de metade do valor de capa à distribuidora, o que lhe permitirá recuperar mais depressa o investimento e avançar para nova edição...

A Lei da Selva
Eduardo Teixeira Coelho (desenho)
Raul Correia (texto)
Libri Impressi
Portugal, Setembro de 2016
230 x 320 mm, 64 p., pb/cor, capa brochada com badanas
12,00 € (portes de envio incluídos para Portugal)

(imagens disponibilizados pelo editor; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

6 comentários:

  1. Creio que o comentário da entrega em 24 horas, seria meu. Digo 'seria' porque aparentemente desapareceu?

    De qq forma, digo que não levou 24 horas mas quase quase isso.
    Entrei em contacto com o M Caldas à uma da tarde por mail com resposta quase imediata. O que levou à transferência do valor, envio de comprovativo e o Manuel (ele que desculpe a familiaridade :-) agradeceu e disse que ia enviar o livro logo nesse dia. O que deverá ter feito, pois que o livro chegou-me às mão, não no dia seguinte mas no outro logo de manhã. E numa embalagem bem protegida.

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    1. Já 'voltou' pco69!
      'Saltou' inexplicavelmente para o spam, mas já o 'recuperei'.
      E obrigado pelo esclarecimento!
      Boas leituras!

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  2. Miguel Relvas21/9/16 14:35

    Como o meu comentário irónico aparentemente não foi compreendido, eu vou explicar: não percebo a necessidade de empurrar os leitores para o negócio informal e para o mercado clandestino, sabendo a típica fuga às obrigações a que se associa. Percebo que o Manuel Caldas seja seu amigo e que queira que o negócio lhe corra bem, mas não é preciso recorrer ao desespero a qualquer custo. Muito menos entendo a crítica à fnac (sim quando se fala de distribuidores em Portugal está-se sempre a pensar na fnac), quando o principal problema da edição de bd em Portugal é de distribuição. Nenhuma editora em Portugal sabe relacionar-se com o comprador e não venderia um décimo do que vende sem a fnac. Só me resta acrescentar que nunca antes tinha visto o caro Pedro com a necessidade de censurar um post. Sentiu agora... Foi porque falei em impostos?

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    1. Caro Miguel Relvas,
      Começando pelo fim: infelizmente tenho censurado regularmente alguns comentários - insultuosos, com linguagem imprópria, publicitários, despropositados... - como aconteceu com o seu. É um privilégio que tenho enquanto autor do blog, mas que dispensava bem. Os visitantes geralmente não se apercebem, porque esses comentários acabam por estar pouco tempo online.
      Censurei o comentário, não pela questão dos impostos, mas porque me pareceu despropositado e pouco claro.
      Quanto à necessidade de "empurrar de empurrar os leitores para o negócio informal", não se deve ao facto de o Manuel Caldas ser meu amigo, mas antes à certeza de que A Lei da Selva vai ter pouca visibilidade e dificilmente encontrará os seus compradores - por ser pouco comercial mas devido também aos problemas de distribuição que cita.
      Deve-se também ao facto de o Manuel Caldas ser um pequeno editor - embora responsável por um assinalável trabalho na recuperação de clássicos da BD - que (sobre)vive das edições de baixa tiragem e enorme qualidade que publica.
      Não vejo onde esteja o "recorrer ao desespero a qualquer custo"...
      No meu texto, em lugar algum citei a FNAC, que até nem é distribuidora, é uma cadeia de lojas, por quem passa, para o bem e para o mal, grande parte das vendas de BD neste país. Referia-me - globalmente - à(s) empresa(s) que levam os livros do armazém do editor até às livrarias e que cobram mais de 60 % do valor de capa, como o M. Caldas esclareceu. A culpa não será só delas, porque boa parte desse valor (mais de 40 % do valor de capa) cabe às livrarias - FNAC, Bertrand, etc) que disponibilizam os livros ao público.
      A distribuição é, continua a ser, sempre foi um dos grandes problemas da BD em Portugal, mesmo apesar de algumas tentativas que houve de alguma forma a contornar, através de distribuição própria ou associação de editores.
      Boas leituras!

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    2. nota para o Pedro Cleto - eliminar post se assim o considerar, até para isto não se tornar uma discussão tipo fórum.

      Acredito que o Manuel Caldas atavés da Libri Impressi, passe recibos a quem assim o entender, até porque de certeza, ele próprio e a empresa, pagará os seus impostos, pelo que a aquisição directa à editora, a já referida Libri Impressi.

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  3. Um grande agradecimento ao Manuel Caldas a quem muito frequentemente compro bd. Principe Valente, Tarzan, e agora esta maravilha. Ja no passado tive uma bd no mercado e sei bem o problema da distribuição e principalmente da exibição do livro na propria loja.Tentem comprar um livro das Publicações Europa-America na FNAC. Talvez encontrem... Abraços e boas continuações. Paulo Pereira

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