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09/08/2016

Fax de Sarajevo



Primavera de 1992. Após a implosão da ex-Jugoslávia, os nacionalismos adormecidos despertam violentamente e sérvios, croatas, bósnios, kosovares, montenegrinos… mergulham numa guerra civil sem quartel, só com culpados, embora com quotas-partes diferentes.
Apanhado no meio de um turbilhão de violência, Erwin Rustemagić, responsável pela SAF, uma agência de publicação de banda desenhada, recorre ao fax – única meio de comunicação com o exterior disponível - para contar aos seus amigos autores – Joe Kubert, Hermann, Martin Ludwig, Hugo Pratt… - o penoso dia-a-dia que vive com a sua família, entre bombardeamentos, atiradores furtivos, falta de bens essenciais, todas as arbitrariedades (in)imagináveis, a perda de tudo o que possuía (incluindo mais de 12 mil originais de BD)…

Dois anos depois, Joe Kubert deu à luz este Fax de Sarajevo, uma obra biográfica e documental que ilustra o pesadelo experimentado pela família Rustemagić, não só pelas condições em que viveram, mas também pelas inúmeras sucessivas promessas de serem retirados de Sarajevo (graças aos bons ofícios dos seus amigos desenhadores e dos seus contactos), sistematicamente não cumpridas, numa constante montanha-russa de esperança e desespero.
Alternando sequências (bem) desenhadas (como só Kubert sabia) com alguns dos milhares de faxes que foram trocados ao longo de mais de um ano – o que aumenta a credibilidade do relato embora lhe coarcte o ritmo de leitura - o norte-americano constrói, assim, uma obra forte, emotiva e emocionante que, mais do que culpar a barbárie instalada e os seus responsáveis, retrata a situação extrema em que viveram dois adultos e duas crianças no local onde tinham nascido, crescido e organizado a sua vida.
Muito importante na altura em que foi lançada, quer em termos de denúncia de uma situação então ainda não inteiramente pacificada, quer em termos de afirmação da banda desenhada como meio narrativo de outro tipo de histórias que não as cómicas, de aventuras ou de super-heróis, Fax de Sarajevo surge hoje um pouco datado – até porque o mundo e a tecnologia mudaram imenso – e apresenta alguns erros factuais – que Rustemagić na altura não conhecia e que Kubert não corrigiu - embora mantenha toda a carga humana e a capacidade de emocionar e tenha uma evidente força narrativa na sua dupla vertente biográfica e documental.

Fax de Sarajevo
Colecção Novela Gráfica #8
Joe Kubert
Levoir/Público
Portugal, 4 de Agosto de 2016
208 p., cor, capa dura
9,90 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)

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