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03/06/2016

Pandora #1








Por nostalgia, teimosia ou visão, a Casterman decidiu voltar às revistas, desta vez sob a égide de Pandora, uma das mulheres que Corto mais amou.

Foram as revistas que estiveram na origem da banda desenhada tal como a conhecemos, foram elas que publicaram histórias longas em continuação mas também histórias curtas, completas, que pressupunham uma outra forma de narrar.
Foram as revistas que fizeram de mim – de tantos que lêem BD – leitores ávidos.
Foram elas, também, que foram perdendo o seu espaço, engolidas pela prevalência do álbum e da história longa completa.
Foi nelas, em narrativas de meia dúzia de páginas que tantos autores se mostraram e, dessa forma, tiveram portas abertas para singrar e serem hoje nomes incontornáveis no seio desta arte. Como Otomo, Rossi, Blutch, De Moor, Mattotti, Loustal, Spiegelman… para citar apenas os mais sonantes dos que estão publicados neste primeiro número de Pandora.
Pandora que, escreve (o seu chefe de redacção,) Benoït Mouchart, vem suprir a falta de ‘uma revista de banda desenhada que permita explorar novas formas, não apenas para novos autores mas também para os artistas confirmados (…) um suporte que permita dar novo fôlego ao segmento da diversão’.
Hesito em continuar, porque o termo anterior me faz pensar. Desenganem-se os que pensam descobrir nela o humor ou a aventura que revistas como a Tintin ou a Spirou definiram durante décadas. A diversão aqui proposta é diferente, mais elaborada, também mais estimulante.
Bem mais próxima da mítica (À Suivre) – ou das experiências de L’Association… - em termos estéticos, gráficos e criativos, Pandora revela-se já, antes de mais, um laboratório aberto a todas as experiências, de todos os quadrantes estéticos, geográficos...
Proposta arriscada – não poderia ser de outra forma – sujeita a ser atacada por leitores experimentalistas (que a acusarão de pouco ambiciosa) ou por leitores tradicionais (assustados pela total liberdade de algumas propostas) Pandora não deixará de ser polémica.
Mas, se poucos aplaudirão tudo o que ela oferece, menos não conseguirão encontrar nas suas páginas motivos de satisfação, reflexão e/ou descoberta. E, através delas, de descobrir temas, formas, estéticas e grafismos, que desconheciam mas que seduzem, estimulam, inquietam e deixam sedentos de mais. No equilíbrio entre uns e outros - e das suas diferentes propostas – é que Pandora terá de encontrar os leitores necessários para continuar. Porque, todos sabemos, os tempos não estão propícios às revistas…
E quando um cocó (literalmente) em viagem é a personagem de uma BD autobiográfica (!), de Killofer se apresenta como uma das propostas mais surpreendentes e divertidas destas mais de 250 páginas – das quais não consigo deixar de referir as contribuições de Tripp, Alfred, Dupré la Tour, Götting e Vivés - bem está sem dúvida a banda desenhada e justificada esta aposta da Casterman.

Pandora #1
Katsuhiro Otomo, Géraldine Bindi & Christian Rossi, Blutch, Michel Pirus, Jean-Louis Tripp, Gilles Dal & Johan De Moor, Claudio Piersanti & Lorenzo Mattotti, Brigitte Fontaine & Olivia Clavel, Alfred, Anthony Pastor, Florence Dupré La Tour, Jean-Claude Götting, Aapo Rapi, Valérie Mangin & Ronan Toulhoat & Denis Bajram, Eleanor Davis, François Ravard, Jean-Luc Coatalem & Jacques de Loustal, Fabio Viscogliosi, Killofer, Brecht Evens, Matz & Manuele Fior, Matthias Lehmann, Jean Harambat, Art Spiegelman, Jean-Christophe Menu, Ville Ranta, Bastien Vivès e David Prudhomme
Casterman, França, Abril de 2016
185 x 260 mm, 264 p., pb e cor, capa mole, semestral, 18,00 €
(Clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

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