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20/06/2016

Eu, assassino








Face ao actual panorama editorial de BD em Portugal, começa a ser uma frase algo batida, mas, mesmo assim, escrevo assumidamente: esta é uma das grandes edições de 2016 no nosso país.

Desenganem-se os que procuram neste livro a linha temática que Antonio Altarriba – um senhor da BD espanhola – seguiu no magnífico A Arte de Voar. Onde este revistava a História espanhola pelos olhos do pai do argumentista, o livro hoje em análise situa-se na Espanha contemporânea. Assustadoramente – se dermos esse crédito às palavras de Altarriba no prólogo – manter-se-à no entanto o tom autobiográfico…
Passo a explicar: o argumentista, no prefácio, defende o título Eu, assassino como forma de anular o afastamento da pulsão assassina que é geralmente norma nos livros que falam de serial-killers. Escreve mesmo: “E aproximei-me tanto que me coloquei dentro”. Fez mais, com a cumplicidade do desenhador Keko, deu ao protagonista do livro, um assassino em série compulsivo, as suas feições, para acentuar ainda mais esse comunhão do tema com o autor…
Eu, assassino acompanha o percurso de Enrique Rodriguez, professor universitário de renome de História da Arte, defensor de teorias controversas relacionadas com as obras dos grandes mestres espanhóis e assassino em série, actividade que exerce como se de uma arte se tratasse, de forma controlada, metódica e convicta.
A par dos pormenores dos assassinatos, da sua localização geográfica à selecção das vítimas, passando pela concretização do acto, este livro é também – e principalmente - uma extensa reflexão sobre as atitudes do ser humano, da paixão à inveja, do valor das relações ao seu aproveitamento, ao ritmo do progressivo isolamento de Rodriguez em torno de si próprio e da sua pulsão assassina, com a pintura clássica espanhola e os meios académicos como pano de fundo.
Obra densa e complexa, provocadora e estimulante, traçada num preto e branco fortemente contrastante, rasgado cirurgicamente em detalhes a vermelho vivo, Eu, assassino obriga a reflectir e incomoda pela forma como cola o leitor – tal como o argumentista - à pele do protagonista, mostrando-lhe o que os seus olhos vêem e (quase?) o fazendo sentir o que ele experimenta em cada um dos seus actos rituais.

Eu, assassino
Antonio Altarriba (argumento)
Keko (desenho)
Arte de Autor
Portugal, Maio de 2016
210 x 280 mm, 136 páginas, pb+vermelho, capa dura
ISBN: 978-989-20-6620-2
19,95 €

(imagens disponibilizadas pela editora; clicar nelas para as apreciar em toda a sua extensão)

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