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06/05/2016

Siné (1928-2016)










O desenhador francês Siné faleceu ontem, aos 87 anos, no Hospital Bichat, em Paris, na sequência de uma intervenção cirúrgica.

Nascido Maurice Sinet, na capital francesa, a 31 de Dezembro de 1928, formou na adolescência a sua posição crítica em relação ao Estado, à justiça e à polícia, uma das marcas distintivas da sua produção humorística, devido à revolta que sentiu por o pai ter sido condenado a trabalhos forçados.
Depois de tentar a sua sorte como cantor de cabaret e cumprir o serviço militar (passado na maior parte na prisão), no início da década de 1950 publicou os seus primeiros desenhos, vindo depois a tornar-se colaborador do L’Express como desenhador político, mas a sua posição anticolonialista durante a Guerra da Argélia, valeu-lhe alguns problemas com os leitores e a publicação, que chegou a pedir desculpar na primeira página por um dos seus desenhos.
Em 1962 deixou o L’Express, em 1962, para fundar o seu próprio jornal, Siné Massacre, que duraria dois anos, onde se afirmou como desenhador anarquista e de extrema-esquerda e deu largas às suas posições contra o colonialismo, o sionismo, o capitalismo e o clero.

 

Com o Maio de 1968 como pano de fundo, lançou L’Enragé, cujos desenhadores, posteriormente, se juntaram ao Hara-Kiri, que em 1970 deu origem ao Charlie Hebdo, de que Siné se tornou um baluarte a partir de 1974.
Quando soube da Revolução do 25 de Abril em Portugal, deixou tudo e veio ao nosso país para a acompanhar, tendo-a ilustrado em diversos trabalhos publicados em jornais portugueses, com destaque para o Sempre Fixe. O livro CIA, escrito por Jean-Jacques Pauvert e ilustrado por Siné, foi lançado nesse ano pela Mondar Editores e é o seu único título lançado em Portugal.

Em Julho de 2008, um artigo que escreveu no Charlie Hebdo sobre o filho do presidente Sarkozy, foi considerado anti-semita e Siné foi despedido, embora mais tarde o tribunal lhe tenha dado razão. Logo em Setembro desse mesmo ano regressava às bancas, como responsável pelo Siné Hebdo, que se viria a transformar em Siné Mensuel e cujo número mais recente, o #53, foi publicado na passada quarta-feira.

 

Nele, o desenhador francês afirmava que nos últimos tempos só pensava na sua “próxima desaparição, mesmo iminente” e que sentia à sua volta “a morte a rodar sem cessar como um porco farejador de trufas”. E continuava: “É horrível estar obcecado com a morte que se aproxima, com as futuras exéquias e com a tristeza dos que me são próximos”, mas também se lembrava de “todos os cretinos que vão esfregar as mãos”, sentindo-se irritado “por morrer antes deles!”
Seguindo o seu desejo, o Siné Mensuel – que enfrentava graves problemas financeiros - continuará a ser publicado, mas agora sem o humor de um desenhador corrosivo e polémico que passou por quase todos os grandes títulos da imprensa francesa e marcou o último meio século do humorismo gráfico.


(versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 6 de Maio de 2016; clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

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