Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

21/04/2016

Chernobyl: A Zona



A “26 de Abril de 1986, explodia o Reactor IV do Complexo Nuclear de Chernobyl. Ninguém sabe o que aconteceu naquela noite. […] não importam as causas, e sim as suas consequências: cinquenta toneladas de material radioactivo lançadas na atmosfera, vinte e cinco mil anos de contaminação na zona, milhares de crianças doentes com cancro. […] Ainda hoje, trezentos velhos vivem nesta região e alimentam-se do produto desta terra fertilizada com material radioactivo.”
Do prefácio de Álvaro Colomer

Chernobyl: A Zona, novela (romance!) gráfica que a Levoir lança hoje com o jornal Público e o apoio da FNAC, é a história do desastre nuclear que teve lugar em Chernobyl há trinta anos. Uma história narrada em tom humano, a partir das vidas – e do ponto de vista - de Leonid e Galia, Vladimir e Anna, Yuri e Tatiana. Três gerações de – hoje - ucranianos – então soviéticos – que sofreram na pele – a diferentes níveis – as consequências desse trágico acontecimento.

[A continuação da leitura deste texto, poderá retirar algum do prazer de descoberta que está associada à leitura de qualquer livro]

  

E é isto que Chernobyl: A Zona nos mostra no seu capítulo central, expondo, cronologicamente, friamente, mas também pudicamente, o que aconteceu, como o incidente foi abafado, como se tentou, ingenuamente esconder e minimizar as consequências, como tantos foram ‘voluntariamente’ levados para uma morte certa, na tentativa de conter os estragos ou de tentar – ainda – atenuar o número de vítimas.
Chernobyl: A Zona fá-lo numa narrativa quase inteiramente muda, em que as imagens soam mais alto do que as palavras, mas num tom demasiado expositivo e anódino, onde a denúncia é minimizada, quase como um documentário verdadeiro mas (demasiado) isento. Para isso contribui o desenho de Natacha Bustos, que, longe de apelar ao leitor, por vezes até denota simplicidade excessiva, problemas de proporção e pouca definição, o que se torna mais evidente num relato quase exclusivamente gráfico, embora em termos narrativos cumpra satisfatoriamente o seu papel.

  

Se no capítulo final, a abordagem mostra uma das formas de as novas gerações – as crianças de Chernobyl… - lidarem com a questão, nomeadamente em termos de memória e busca de explicações, a força maior de Chernobyl: A Zona está concentrada no primeiro capítulo, de tom bem humano e sem dúvida tocante, protagonizado por Leonid e Galia, um casal de ‘retornados’ às suas origens, que revela o seu quotidiano, sempre igual e igual a nada, vivos – sem saber(mos) como – no local onde, podemos imaginar, nasceram, cresceram, brincaram, casaram e (saberemos depois) tiveram filhos e netos, mas que agora virou um deserto - de gente, de seres vivos…
Mas onde, teimosamente enraizados, insistem em (sobre)viver. Até que a morte lhes advenha.

Nota
Dentro deste mesmo tema, mas com uma outra dimensão, na beleza do traço e na força do registo, aconselho também a leitura de Un Printemps à Tchernobyl, de Emmanuel Lepage.


Chernobyl: A Zona
Francisco Sánchez (argumento)
Natacha Bustos (desenho)
Levoir / Público
Portugal, 21 de Abril de 2016
170 x 240 mm, 192 p., pb, capa dura
ISBN: 9789896825782
11,90 €

(Imagens fornecidas pela editora)

3 comentários:

  1. Paulo Pereira21/4/16 21:40

    Boa noite, passei por vários quiosques e não consegui comprar a BD. O que se passou? Uns não receberam, outras não sabiam de nada. Estranho caso.

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    Respostas
    1. O livro está disponivel na FNAC (numa loja ou pela net).

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  2. Paulo Pereira23/4/16 10:28

    OK, obrigado Anónimo. Espero que na FNAC o preço seja o mesmo aquando da edição supostamente conjunta com o jornal Público.

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