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21/03/2016

Super-Homem & Batman: Antologia



Não é novidade – vem nos (bons) livros de História(s) – Super-Homem estreou-se em 1938 e Batman em 1939. O primeiro, fruto da imaginação de Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992), fez a primeira aparição no número inaugural da revista Action Comics, datada de Junho daquele ano, a tal de que um exemplar foi vendido por mais de 3 milhões de dólares em 2014.
Quanto a Batman, a sua criação está creditada a Bob Kane (1915-1998), com o importante contributo de Bill Finger (1914-1974) no argumento, e estreou-se no n.º 27 da revista Detective Comics, que ostentava na capa a data de Maio de 1938, com uma história que pudemos recordar no volume 75 Anos de Aventuras da colecção 75 anos de Batman. 2,2 milhões de dólares foi o valor máximo atingido em leilão por um exemplar daquela revista.

Super-Homem e Batman têm vários pontos comuns: ambos são órfãos, ambos decidem combater o crime, ambos decidem dar o máximo pelas cidades onde vivem, ambos adoptam identidades secretas. Há no entanto (pelo menos) outros tantos a separá-los: Super-Homem foi enviado de Krypton, um planeta destruído após a sua partida, Batman nasceu na Terra; Super-Homem teve uma infância e adolescência felizes, enquanto Batman vive angustiado e rodeado de fantasmas desde criança; o Sol que nos ilumina confere a Super-Homem poderes extraordinários, as capacidades de Batman, adepto da noite e da escuridão, provêm do exercício físico, da sua capacidade dedutiva e do equipamento especial que desenvolveu; Batman é um solitário, que utiliza a violência e o terror que inspira como principais armas para combater os vilões, enquanto Super-Homem prefere uma atitude mais positiva.
Super-Homem e Batman foram os primeiros daqueles que hoje conhecemos por super-heróis e rapidamente alcançaram um grande sucesso, com um igualmente rápido salto para a TV, o cinema e a rádio. Também por isso, tornaram-se ícones da editora Detective Comics, Inc., uma empresa que posteriormente seria incorporada na futura DC Comics, que hoje conhecemos.

Curiosamente, apesar da proximidade das suas estreias e do sucesso comum - e, mais surpreendente ainda à luz do que hoje em dia é vulgar – Batman e Super-Homem só se encontrariam nas páginas dos quadradinhos – descobrindo de imediato as respectivas identidades secretas - mais de uma década depois. Isso aconteceu em A Mais Poderosa Equipa do Mundo, publicada em Junho de 1952, exactamente a história que abre este volume, escrita por Edmond Hamilton e desenhada por Curt Swan. Este último foi um dos principais responsáveis gráficos pelo Super-Homem, tendo-o desenhado ao longo de mais de 30 anos, incluindo a tira diária e a icónica O que aconteceu ao homem do amanhã, escrita por Alan Moore, com que fez a sua despedida. O seu estilo, muito legível, inteiramente fiel aos guiões que lhe eram fornecidos e que contribuiu para a humanização do (extraterrestre) Super-Homem, deixou uma marca indelével.
A Mais Poderosa Equipa do Mundo, dotada de uma grande ingenuidade narrativa – se avaliada à luz dos padrões actuais - própria da época em que foi criada, apresenta pormenores deliciosos que devem ser devidamente apreciados, como a razão para Bruce Wayne/Batman embarcar no cruzeiro de luxo onde o destino o tal que faz bem as coisas… – o coloca na mesma cabine de Clark Kent/Super-Homem, a forma como a descoberta mútua acontece, como se protegem um ao outro face a uma cada vez mais intrigada Lois Lane ou o inusitado desfecho final.

Apesar deste primeiro encontro tardio, Super-Homem e Batman já partilhavam, em aventuras a solo, as páginas de uma outra publicação, a World’s Finest Comics, desde 1941, bem como as respectivas capas, muitas vezes bem mais próximas do gag do que das façanhas super-heróicas que seria legítimo esperar deles. Para os ver juntos, foi preciso esperar pelo número 71, de 1954, quando a diminuição de páginas da publicação forçou que começassem a actuar em conjunto.
É desta revista, dos números #175/#176, que foi retirada os Esquadrões de Vingança de Super-Homem e Batman, uma narrativa que tem por base um concurso de astúcia para avaliar qual é a melhor dupla: Super-Homem/Jimmy Olsen ou Batman/Robin, mas que culminará no combate entre os heróis e os esquadrões de inimigos de cada um deles. O argumento pertence a Leo Dorfman, mas o grande destaque deve ir para a arte de Neal Adams, aqui numa das suas primeiras participações em Batman, que inicia um corte com o estilo kitsch que à data marcara os anos precedentes das personagens. Poucos anos depois, após a polémica e marcante passagem pela dupla Lanterna/Verde Arqueiro Verde – que tivemos oportunidade de desfrutar em Inocência Perdida, na anterior colecção Levoir/Público Super-Heróis DC Comics - Adams regressaria ao Homem-Morcego para tornar as suas histórias mais sombrias e violentas, ao fim e ao cabo, mais próximas da sua imagem original.

Avançando neste volume, novo salto temporal leva-nos até 2006, a Ontem, hoje, amanhã, um relato que revisita uma realidade diferente da relação, nem sempre pacífica, nem sempre profícua, de Batman e Super-Homem: a sua coexistência na Liga da Justiça. Piscar de olho à memória dos leitores regulares da DC Comics, é um apanhado dos grandes momentos – bons e maus – vividos por ambos, da sua formação às mortes temporárias ou fingidas de cada um deles, de futuros hipotéticos, das situações de (quase) confronto e ruptura aos momentos felizes partilhados com os outros membros, unindo na sua arte – e no estilo original de cada um desses momentos - o talento dos artistas que ao longo dos anos os levaram até aos leitores, entre os quais se contam Dick Giordano,  George Pérez, Ethan Van Sciver, Adam Kubert ou Dan Jurgens.

Se a banda desenhada anterior tinha por base a participação igualitária na Liga da Justiça, a seguinte, Rumo ao Microverso, publicada pela primeira vez em 2014, assenta na base de confiança existente entre os dois protagonistas deste volume, mostrando como em qualquer momento podem depender inteiramente do outro. Esta é uma história recente de Jeff Lemire, Karl Kerschl e Scott Hepburn, que marca também o ‘nascimento’ do Átomo no universo DC, na fase Novos 52.

Se calhar já ouviram esta…, a banda desenhada seguinte, se ignora um seguimento cronológico, pretensões de continuidade ou coerência narrativa, de certa forma representa como que o fechar de um círculo, num remake da história que abre o volume, bem à moda de Hollywood. Mas, onde na primeira imperava a ingenuidade e o inusitado, aqui é o humor – presente logo no título – que percorre as páginas. Uma leitura mais atenta fará realçar também o que mudou – em termos gráficos, narrativos e temáticos – nos quase 60 anos que separam a versão original desta, deliciosa, assinada por Joe Kelly, Ed McGuinness, Ryan Ottley, Sean Murphy e Carlo Barberi.

Fora desta lógica, em tom de desafio, a encerrar o volume, temos When Clark met Bruce, uma história de apenas duas páginas na qual Jeph Loeb e Tim Sale, de forma poética e com grande sensibilidade, transformam o tal primeiro encontro (inicial) quase em segundo. Nele, Clark e Bruce – ainda miúdos, distantes de se tornarem destacados cidadãos de Metrópolis e Gotham City como Super-Homem e Batman – olham-se nos olhos, a poucos metros de distância, com o mesmo desejo – infantil – de brincadeira conjunta, na beira de uma estrada, algures perto de Smallville, no interior da América profunda. Mais do que um apontamento curioso, esta narrativa abre a porta a uma reflexão: como poderia este eventual encontro ter proporcionado o nascimento de uma amizade diferente e ter mudado o futuro de ambos, principalmente de Bruce Wayne, despojando-o, quem sabe, da amargura e tristeza que acabaram por tomar conta dele e transformá-lo no homem/vigilante que hoje conhecemos.

Um volume destes apresenta a grande vantagem de permitir, num reduzido número de páginas, ter um vislumbre de quase sete décadas de encontros – os desencontros, os momentos de tensão, afastamento ou confronto ficarão para uma futura oportunidade… – entre os dois maiores protagonistas da DC Comics e de como a forma, o estilo, o grafismo e as temáticas foram evoluindo – ou só mudando? – ao longo do tempo e ao sabor da inspiração e do talento dos grandes autores que os trouxeram até aos dias de hoje e até nós.


Super-Homem & Batman: Antologia
Colecção Super-Heróis DC #07
Inclui: Superman (vol. 1) #76, World's Finest (vol. 1) #175-176, Justice League of America (Vol. 2) #0, Batman/Superman (vol. 1) #10, Superman/Batman Annual (vol. 1) #1, Superman/Batman Secret Files 2003
Edmond Hamilton, Leo Dorfman, Cary Bates, Brad Meeltzer, Jeff Leemire, Joe Kelly, Jeff Loeb (argumento)
Curt Swan, John Fischetti, Neal Adams, Dick Giordan, Eric Wight, Tony Harris, George Pérez, J.H. Williams III, Luke McDonnell, paul neary, Gene Ha, Rags Morales, Ethan Van Sciver, Kevin Maguire, Adam Kubert, Dan Jurgens, Kvin Nowlan, Jimm  Lee, Howard Porter, Dexter Vines, Andy Kubert, Jesse Delperdang, Phil Gimenez, Andy lanning, Ed Benes, Sandra Hope, Karl Kerschl, Scott Hepburn, Ed McGuinness, Ryan Ottley, Sean Murphy, Carlo Barberi, Cliff Rathburn, Don Hillsman II, Bob Petrecca, Andy Owens, Rodney Ramos, Tim Sale (desenho)
Levoir/Público, 17 de Março de 2016
175 x 265 mm, 160 p., cor, capa dura, 9,90 €

(Texto de introdução ao volume Super-Homem & Batman: Antologia)

1 comentário:

  1. Gosto deste volume, está equilibrado entre histórias clássicas e novos 52. Estão também representados alguns artistas que ficaram fortemente ligados na história dos dois, caso do Curt Swan no Super-Homem e do Neil Adams (um dos meus grandes preferidos) no Batman. Tem havido por parte da Levoir uma harmonia na escolha das histórias.

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