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11/12/2015

Comic Con 2015 – O meu balanço


Encerradas as portas, com alguns dias de permeio para deixar as ideias assentar, segue-se o meu balanço à Comic Con Portugal 2015.

A primeira constatação passa pela implementação do modelo e pelo seu sucesso evidente: a edição deste ano cresceu em área – de 35 mil para 45 mil metros quadrados, de 3 para 4 pavilhões -, em expositores – que foram mais do dobro, na área geral e na zona de gaming -, em número de convidados – já lá vou… - e- fundamental – em número de visitantes – que arrasaram os 32.500 de 2014, pois este ano foram contabilizados mais de 53 mil!

Claro que nem tudo são boas notícias e nem tudo correu bem.
Começando pelos convidados, o principal chamariz, há a considerar duas áreas. Na de cinema e TV, o cartaz foi sem dúvida inferior ao do ano transacto, apesar de ter sido alargado. Quanto ao cartaz de BD, manteve em número e qualidade, o nível de 2014. E, na verdade, será preciso recuar muitos anos para encontrar em Portugal um evento de BD com um cartaz com o peso do da Comic Con 2015, onde se destacavam Brian Azarello, Eduardo Risso, Juan Dias Canales, Rúben Pellejero, Miguelanxo Prado e Carlos Pacheco. É verdade que estes dois últimos repetiam as presenças de 2014 mas nunca vi as suas filas de autógrafos vazias, bem longe disso.
Ambas as áreas, no entanto, sofreram de um problema inevitável (?) neste tipo de eventos: os cancelamentos de última hora – agravados este ano pelos recentes atentados terroristas e pelo clima de insegurança vivido na Europa? – que impossibilitaram a presença de Jason Mamoa, o presumível cabeça de cartaz da Comic Con, de actores da série Teen Wolf (que mesmo assim foi possível substituir à última da hora), de elementos de vários painéis que não chegaram a ser anunciados e dos autores Yves Sente e Iouri Jigounov (cuja não presença nunca foi noticiada pela organização).
Nesta área ainda uma referência para as presenças de Antonio Altarriba e Miguel Rocha, a convite da Levoir – que a organização inexplicavelmente ignorou em termos de site e Facebook – e do dinamarquês Peter Snejberg, a convite da G. Floy Studio. Apostas de editoras - que também apresentaram stands que se distinguiam - na Comic Con, que mostram uma forma diferente de estar na BD e a importância que o certame (já) granjeou.  O que, no que à literatura diz respeito, também está espelhado na presença do escritor David Durham, a convite da Saída de Emergência.
Apesar disso – e citando o caso da BD – seria bom que em futuras edições os nomes pudessem ser melhor adequados à realidade (editorial) portuguesa.
As grandes áreas propostas – stands de vendas, áreas de cinema/TV e de gaming – estiveram sempre com bastante público, em especial no sábado em que mais uma vez a adesão do público foi impressionante. E mostrou que, apesar dos progressos feitos, nem tudo foi devidamente acautelado. De manhã, entrar na Exponor chegou a demorar mais de duas horas, a (muito maior) zona de alimentação não chegou nem de perto nem de longe para as solicitações (no sábado) e uma única caixa multibanco em toda a Exponor revelou-se – obviamente – muito curto (apesar de ter sido recarregado a meio da tarde), sendo constantes as longas filas para lhe acederem. Esta foi, aliás, uma queixa recorrente por parte de muitos expositores – e em especial dos artistas presentes na Artists’ Halley - que viram inviabilizadas muitas vendas pela dificuldade de levantar dinheiro.
Os problemas de rede de telemóveis e de sinal de wi-fi foram também imensos e precisam de ser resolvidos para 2016.
Um dos aspectos mais positivos do evento é a cada vez maior adesão ao cosplay por parte dos visitantes – alguns dos fatos são ‘melhores que os originais’! -, que contribuem com uma nota de cor e alegria e ajudam à criação do espírito festivo pretendido.
Nesta análise global termino com uma referência para o incentivo da Comic Con à indústria nacional, iniciado com a criação dos Galardões BD que, independentemente das críticas que possam ser apontadas ao nome, ao regulamento e à orgânica, é o primeiro prémio nacional que distingue com um prémio monetário efectivo e significativo a melhor obra do ano. A organização tem a intenção, em edições futuras, de criar iniciativas semelhantes noutras áreas.

Chegado aqui, quero acentuar uma questão. Vivi quase toda a (minha) Comic Con na zona dedicada à banda desenhada, por isso, não tenho indicadores de como correram as coisas nas restantes áreas, por isso, daqui para a frente a análise incidirá apenas nela, mesmo sabendo que – apesar de ter estado na génese das Comic Con – é hoje uma área menor e menos significativa.

No que respeita à BD houve mudanças sensíveis. Se foi boa a intenção de juntar zona de autógrafos, auditórios e stands de vendas de livros, na prática não resultou.
Nos auditórios, devido ao ruído ambiente, era extremamente difícil, se não impossível, ouvir as conversas – algumas delas bem interessantes. Por este motivo ou por outras razões, a verdade é que este ano a maioria dos painéis tiveram pouca assistência., ao contrário de 2014 em que muitas dezenas ou algumas centenas estiveram presentes nos painéis de BD no bem mais apropriado e confortável Auditório B.
Também as filas para as sessões de autógrafos não atingiram a dimensão das de 2014. Para isto poderá ter contribuído o facto de esta zona estar ‘escondida’ num canto, ter havido uma divulgação menos eficaz da sua realização e de o folheto destinado ao efeito ser ridiculamente ilegível – para quem não soubesse antecipadamente do que se tratava, o anúncio de uma sessão de autógrafos com “Ruban & Diaz & Brian & Risso & Peter” (sic) diz muito pouco…
Um sistema de som eficaz onde sejam anunciados painéis, sessões de autógrafos, exibição de filmes, etc., deve ser uma das melhorias para 2016.
Em termos de vendas, se a maior parte dos livreiros com quem falei estavam satisfeitos, as previsões - inflacionadas pelos bons resultados do ano anterior… - de uma forma geral não foram atingidas, podendo para isso, a par da má localização dos stands de BD, ter também contribuído a maior oferta global registada este ano. E se todos – praticamente? – pensam voltar, ficou evidente que o público da Comic Con é, por exemplo, claramente diferente do do AmadoraBD, por isso super-heróis e manga vendem melhor que romance gráfico, obras nacionais ou séries europeias, podendo fazer alguma diferença a presença de autores – desde que devidamente anunciada. E, evidentemente, jogos e merchandising vendem mais do que livros… Cada um terá de fazer as suas contas e ajustar a sua oferta à especificidade do evento, sendo patente que alguns não se identificam claramente com o público.
Muito positiva, em meu entender, foi a edição de alguns títulos especialmente para a Comic Con. Batman Noir, de Brian Azarello e Eduardo Risso, da Levoir – com os exemplares disponíveis esgotados ao início da tarde de sábado! – é o exemplo mais relevante mas há que referir igualmente Wolverine: Logan, de Vaughan e Risso, Southern Bastards #1 (ambos da G. Floy Studio), Psicopatos 2 (Arcádia), de Miguel Montenegro, e Free Lance, de Diogo Carvalho.
Quanto ao Artists’ Alley, teve este ano mais autores presentes e esteve melhor situado, embora boa parte dos seus integrantes tenham manifestado a vontade de estarem mais próximos da zona dos expositores.

Em resumo, se foi revelada aprendizagem da primeira para a segunda edição, a dimensão atingida e o crescimento registado implica uma maior profissionalização do evento, quer na sua componente organizativa, quer do pessoal no terreno durante os três dias, onde apesar da boa vontade se registou muito desconhecimento., para que ‘o maior evento de cultura pop português’ possa ser, plenamente e em todas as suas dimensões, a grande festa que organização, expositores e visitantes desejam e que em muitos aspectos já é.

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