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23/11/2015

Undertaker, tomes 1 e 2








“E disse Deus: Todos os que são suficientemente estúpidos para se enfiarem no Inferno, merecem lá ficar perpetuamente.” Carta de Jonas aos californianos

O western – felizmente - não está morto e álbuns como este Undertaker auguram-lhe até um futuro - duplamente – risonho. Pelo passo em frente no assegurar da sua perenidade e pelo salutar humor negro que ostenta.

Esse humor é um dos factores distintivos entre este western e tantos outros que a BD nos tem oferecido – e a propósito veja-se, por exemplo, o delicioso monólogo inicial do protagonista, um coveiro ‘a domícílio’ que tem um abutre como animal de estimação – que achado! – ou mesmo toda a trama, assente num texto equilibrado e muito bem escrito, numa das histórias mais originais que já vi num western - e, sim, ainda é possível inovar neste género – paradoxalmente combinado, de forma contrastante, com um alto grau de violência, explícita ou não.
A isto – tanto já! – acrescente-se um belo desenho, realista e muito dinâmico, uma planificação ágil com o constante recurso a mudanças de enquadramento, a evocar – sem nada ficarem a dever? - aos de Jean Giraud em Blueberry, um dos maiores monumentos ao western que a BD erigiu.
A história começa quando Jonas Crow (sic!), “o coveiro que dá vida aos mortos” (!), com uma forma peculiar de citar a Bíblia consoante os seus interesses…, recebe um telegrama a convocá-lo para tratar de um funeral. Uma vez chegado ao local, descobre que foi a vítima que - ainda não o é – quem o contratou para tratar do seu próprio enterro, no dia seguinte.
Um morto que continua a orquestrar a vida dos vivos, a cobiça despertada pela riqueza (desaparecida no interior do falecido) acumulada ao longo dos anos, uma ex-governanta apostada em mostrar ao ex-patrão, agora cadáver, que lhe tirou tudo mas não o orgulho, mineiros descontentes que querem passar de (quase) escravos a seus próprios patrões, um refém inocente – cuja identidade é mais um achado! - vítima de uma tétrica maquinação, cuja vida depende do morto ser enterrado ou não, um xerife, os seus ajudantes e um pelotão militar entre o desejo de cumprir a lei e o de enriquecer rapidamente, o passado sombrio de Crow que teima em assolá-lo, os estranhos sentido de justiça e de lealdade de Rose e Lin, as companheiras que as circunstân-cias proporcionaram ao cangalheiro e um cadáver em trânsito recheado de… ouro, são outros pontos fortes de uma obra plena de adrenalina que se desenvolve em crescendos sucessivamente superados, assente numa longa perseguição que semeia o caminho de (inúmeros) mortos e feridos.
O primeiro tomo termina de forma magistral, o segundo fecha de forma brilhante e, por tudo isto e mais – escrevo-o pesando bem as palavras – Undertaker entusiasmou-me, como há muito um western – um dos meus géneros de eleição – ou mesmo qualquer relato de aventuras, há muito não o fazia.

Undertaker
Tome 1 - Le mangeur d’or
EAN 9782505061373
Tome 2 - La Danse des vautours
EAN 9782505063544
Xavier Dorison (argumento)
Ralph Meyer (desenho)
Dargaud
França, Novembro 2014 e Novembro 2015
241 x 318 mm, 56 p., cor, capa dura, 13,99 €

8 comentários:

  1. Termina no 2? Ou pelo menos, fecha um ciclo? Confesso que é uma série que me despertou a atenção, mas não tenho paciência para ir esperando que os autores vão lançando os livros. Prefiro esperar e comprar séries ou ciclos completos. Naturalmente, sei que os autores também 'precisam de comer' e como tal, precisam ir vendendo...

    Fui rever a série no site da bdtheque, mas apenas indica 'série em curso'...

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    1. O #2 fecha o ciclo, pco69, mas pressupõe que outras aventuras se seguirão.
      Boas leituras!

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    2. Obrigado Pedro. Coisa irritante nos comics (made in USA) é a sua filosofia de 'telenovela continua' e nos FB é os 'Ciclos'.

      Para além disso, por várias razões, também faz com que as nossa editoras muitas vezes deixem ciclos pendurados

      Obviamente percebo que uma história será melhor contada em 5 (ou 2) x48 do que num album simples, mas o 'perceber' não quer dizer que goste... :-)

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    3. Tem tudo a ver com o ritmo de publicação, pco69.
      Nos EUA, a publicação mensal obriga a que a história nunca pare para os leitores não largarem as revistas. Ou, mais ainda, espalham a história por vários títulos, tentando que o leitor os compre todos...
      No mercado franco-belga, o álbum de 48 páginas corresponde - ou correspondeu noutros tempos - sensivelmente a um ano de trabalho (do desenhador)...
      Agora, obviamente, todos nós preferíamos ter a obra completa num único volume... embora depois pudéssemos reclamar com os intervalos entre publicações muito longos ou livros demasiado caros...!
      Boas leituras!

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  2. pena que não tenha previsão de lançamento no Brasil!

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    1. Nem em Portugal. Haroldo... ;(
      Boas leituras!

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  3. "perpétuamente" não!
    "perpetuamente"!
    Advérbios de modo nunca são acentuados

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    1. Obviamente Daniel.
      Obrigado pela leitura atenta!
      Boas leituras!

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