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27/11/2015

Talco de Vidro













Se Tungsténio era já uma história forte, este Talco de Vidro é algo completamente brutal – custa-me escrever assim, mas não encontro outro adjectivo adequado… - e confirma Marcelo Quintanilha como um dos grandes autores da actualidade.

De propósito, não incluí ‘brasileiros’ na frase anterior, porque o talento já o fez ultrapassar as barreiras de nacionalidade ou do género para ser apenas um ‘grande’ autor.
Talco de Vidro é a história de Rosângela, casada há mais de década e meia com Mário que a ama apaixonadamente, mãe de dois adolescentes, moradora num duplex de luxo numa das zonas mais ricas do Rio de Janeiro, dona de um belo carro e detentora de um consultório de dentista reconhecido.
Mas, apesar de ter tudo – amor, família, dinheiro, estatuto, reconhecimento, felicidade… – Rosângela deixa que uma sombra enevoe a sua existência: o sorriso da sua prima, filha de um bêbado, ex-mulher de um bêbado, saco de pancada de ambos, remediada, divorciada, sozinha…
Essa sombra – inexplicável – rapidamente transformada em compulsão obsessiva, vai fazê-la entrar numa espiral de auto-destruição que Quintanilha narra de forma magistral, sugerindo mais do que mostrando, fazendo-nos quase entrar na cabeça de Rosângela e ouvir os seus pensamentos, sentir a sua frustração, experimentar quase o que ela vive, arrastando-nos com ela para um poço cada vez mais fundo e assustador.
E, quando pensávamos já ter visto tudo, Quintanilha, de forma soberba, após provocar o leitor ao apontar um potencial desfecho, violenta-nos ainda mais com um final que acrescenta sentido ao tal adjectivo que usei acima: brutal.
Pela intensidade da narração, de cadência propositadamente lenta e esmagadora, pela forma como arrasta o leitor, como o faz sentir o desespero e o desvario da protagonista, pela forma como encerra tudo, não me custa nada escrever que num ano especialmente rico no que à edição de BD diz respeito (em Portugal), este é sem dúvida um dos grandes títulos de 2015.

Talco de Vidro
Marcelo Quintanilha
Polvo
Portugal, Novembro de 2015
170 x 240 mm, 160 p., preto, branco e cinza, capa mole com badanas
14,90 €

3 comentários:

  1. Uma crítica de BD excepcional. Felicito-o Pedro Cleto.

    Abraço.

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    Respostas
    1. Obrigado Lino!
      Espero que ela cumpra o seu papel: levar os leitores deste blog a lerem este magnífico livro de Marcelo Quintanilha.

      Boas leituras!

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  2. A presença do Marcello Quintanilha no Amadora BD deste ano, foi uma excelente desculpa para comprar este livro, que me tinha deixado um impacto visual forte. As minhas expectativas não foram defraudadas, que para além do traço muito real, somos conduzidos por uma narrativa que nos leva a crer num hipotético final feliz, mas ai levamos uma estocada brutal. Tive o prazer de trocar umas palavras com o autor, de elogiar o traço do seu desenho quase fotográfico e de trazer o livro com dedicatória. Fiquei fã do estilo e irei adquirir mais livros dele.

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