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19/11/2015

Kong the King










Kong the King, uma releitura do clássico cinematográfico King Kong, mas com pressupostos e desfecho díspares, que marca a estreia a solo de Osvaldo Medina, tal como Milagreiro, era um dos títulos portugueses lançados no Amadora BD sobre que recaíam maior curiosidade e expectativas. Tal como Milagreiro, cumpriu-as se não as tiver mesmo superado.

E, o mínimo que se pode escrever sobre esta estreia, é que é uma grande estreia. Não pelo tamanho do protagonista, obviamente. Não pela dimensão da obra: uma novela gráfica, muda, com quase centena e meia de páginas – contidas numa capa dura que ajuda a fazer deste livro um belo objecto e uma bela edição. Sim, pela grandeza inerente ao tema, pela grandeza (interior) que Kong ostenta, pela forma como Medina sai valorizado da experiência, adicionando ao seu reconhecido talento gráfico, o de narrador equilibrado, competente e capaz de surpreender.
Não que Kong the King tenha uma grande história – e não entendam mal esta frase - não era essa com certeza a intenção, mas sobre ela não me quero alongar muito para não destruir as surpresas que se podem encontrar ao longo da leitura. De forma simplificada e obviamente redutora, diria que ela narra a rodagem de um filme numa ilha selvagem que proporciona a descoberta de um indígena gigante. Salvador por casualidade da actriz estrela, é convencido a embarcar com a equipa cinematográfica, para cumprir o seu sonho de conhecer uma grande cidade. Aí chegado, descobrirá rapidamente que a admiração que lhe era votada, rapidamente descambou em interesse oportunista e de herói a explorado vai uma distância curta.
Abandonado, solitário, sem amigos nem protectores, apesar das ofertas que lhe são feitas – fama, glória, dinheiro, sexo… - terá de fazer o seu caminho para tentar reencontrar a felicidade, a simplicidade de vida, o canto dos ‘seus’ pássaros e… algo mais.
Mas, a contrastar com esta linearidade do enredo, apesar disso coerente, equilibrado e cativante, está a excelência da narrativa gráfica, com Osvaldo Medina, sem uma única palavra escrita, apenas com o recurso ao seu traço, à diversidade de pontos de vista que utiliza, a uma planificação tradicional mais dinâmica e suficientemente diversificada, a ser capaz de gerir tempos, emoções, reflexão e acção, e a transmitir a mensagem que deseja passar, proporcionando uma leitura que não se torna cansativa nem maçadora e, uma vez terminada, convida a voltar atrás para mergulhar – de novo – na obra e (re)descobrir (novos) pormenores.

Nota final
Não sei se o facto de se tratar de uma edição destinada também aos mercados inglês e polaco fez diferença, mas Kong the King – tal como Tormenta, A Agência de Viagens Leming ou O Baile (3.ª edição), para citar só algumas edições recentes - surge com uma bela capa dura, que dá outra consistência e (bom) aspecto à edição. Quero acreditar – sem grande dificuldade – que é fruto do trabalho feito com a BD portuguesa nos últimos anos, especialmente pela Kingpin Books e pela Polvo, que lhe confere hoje um estatuto maior e se traduz na existência de um mercado que reconhece a sua qualidade e está por isso receptivo a edições (ainda) mais cuidadas.


 

Kong the King
Osvaldo Medina
Kingpin Books
Portugal, Outubro de 2015
202 x 276 cm, 144 p., tons sépia, capa dura.
ISBN: 978-989-8673-19-9
16,99 €

(Imagens cedidas por Osvaldo Medina)

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