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06/10/2015

Demolidor: Partes de um todo












Desafio aos sentidos do leitor, pela complexidade da sua composição gráfica mas não só, este Demolidor: Partes de um todo, é também uma bela narrativa – (por caso) de super-heróis – sobre solidão e a necessidade de companhia que é inerente ao ser humano.

João Miguel Lameiras chamou à sua (conseguida – mais uma vez) introdução ao livro – e ainda há quem as salte… - O Demónio [Daredevil/Demolidor] e as Mulheres, colocando exactamente o dedo na ‘ferida’.
Porque, antes de mais, esta é mais uma narrativa em que a acção, o seu eterno conflito com o Rei do Crime, os (in)sucessos nos tribunais dos advogados Nelson & Murdock, os confrontos de rua com (pequenos) criminosos são apenas pormenores (da máxima importância…) que condimentam a questão fulcral: a solidão de Matt Murdock e a sua necessidade premente de a preencher com uma presença feminina. Uma presença feminina forte, que lhe inspire antes de tudo – do desejo, do carinho, da paixão, da companhia… - segurança e abrigo.
Desta vez, a escolhida – por David Mack – é Maya Lopez, protegida de Wilson Fisk, surda de nascença e portadora – também ela – de uma habilidade especial, a capacidade de reproduzir qualquer movimento que visualize.
Por isso, a relação apaixonada de Matt e Maya, transformar-se-á numa luta entre o Demolidor e Eco, em que, em oposição, estarão os sentidos sobredesenvolvidos de um e outro, uma luta entre visão e audição ou, mais especificamente, uma luta entre os sentidos desenvolvidos na ausência destes dois referidos.
E é exactamente aos nossos sentidos que os autores apelam e são os nossos sentidos que eles desafiam. David Mack, fá-lo através de um argumento em espiral que vai conduzindo inexoravelmente toda a trama para o ponto fulcral – o confronto final Eco/Demolidor (Maya/Matt) – ao mesmo tempo que os textos de apoio, que profusamente vai espalhando pelas pranchas, sob a forma dos pensamentos íntimos de Murdock, Lopez e Fisk, nos alargam os horizontes e levantam questões – a necessidade de sobrevivência e adaptação, em infâncias órfãs ou marcadas pela violência doméstica, o nosso lugar neste mundo, a nossa capacidade de apre(e)ndermos  com a experiência dos outros – que perduram para lá da leitura da última página e do fecho do livro.
A este argumento, bem mais complexo do que pode parecer numa leitura rápida, Joe Quesada deu uma roupagem graficamente arrojada, combinando um traço semi-caricatural de proporções exageradas, com desenhos infantis, colagens (?), elementos realistas e uma legendagem que, em muitos casos, também funciona como (mais) um elemento gráfico, numa composição que se, inicialmente, pode confundir ou intimidar o leitor, acaba por se revelar ajustada e, possivelmente, a única cabalmente capaz de transmitir tudo aquilo que os dois autores pretenderam, complementando-se - com as indissociáveis cores de Richard Isanove - como as várias partes de um todo indivisível.

Demolidor: Partes de um todo
Colecção Poderosos Heróis Marvel #11
David Mack (argumento)
Joe Quesada e David Ross (desenho)
Jimmy Palmiotti e Mark Morales (arte-final)
Richard Isanove (cor)
Levoir / Jornal Público
Portugal, 1 de Outubro de 2015
175 x 265 mm, 144 p., cor, cartonado
8,90 €

2 comentários:

  1. Já li alguns dos autores queixarem-se das suas introduções não serem lidas. Quando posso, digo que, pelo menos eu leio-as todas. Não sendo consumidor habitual de comics, as várias introduções feitas pelas várias pessoas que as têm feito têm sido para mim um guia extraordinário de introdução/revelação dos vários universos em questão (simplificando, DC/Marvel). Por mim, só tenho a dar-lhes os parabéns.

    Relativamente a este livro em particular, fiquei bem satisfeito pelo dinheiro gasto. Obrigado à Levoir por o terem escolhido e editado em Portugal.

    Aqui à pouco tempo, li algo interessante aqui (http://estantedamosi.blogspot.pt/) a autora, refere que se for um livro com mais que 3 autores, ela perde a vontade de o ler. Neste caso, perde um bom livro e uma boa BD.

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  2. Eu posso afirmar que mal tenho o livro a primeira coisa que faço é ler a introdução, mesmo que não vá ler o resto do livro de seguida. :)

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