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18/05/2015

Bando de Dois








Pelas boas referências e por ser uma das obras que contribuiu para abrir o mercado brasileiro e torná-lo um dos mais interessantes do presente, este álbum, ainda disponível nos locais de venda, era um dos títulos da colecção Novela Gráfica que mais curiosidade tinha em ler.
O mínimo que posso dizer é a leitura deste livro, ainda disponível nas bancas. que as minhas expectativas se cumpriram e foram até superadas.


Resumo
Western spaghetti de tom brasileiro, protagonizado por dois cangaceiros e ambientado no Nordeste do Brasil, Bando de Dois narra como Tinhoso e Caveira de Boi, os dois sobreviventes de um bando de cangaceiros, tentam recuperar as cabeças dos seus companheiros, utilizadas como troféus pela polícia.
Vingança, aventura, humor e dinamite, são os restantes ingredientes desta história.

Desenvolvimento
A inclusão de Bando de Dois na colecção Novela Gráfica levou algumas pessoas a abanar a cabeça. É evidente que esta obra de Danilo Beyruth não tem a relevância nem a importância histórica – dentro da História da banda desenhada – de outros títulos desta colecção como Um Contrato com Deus, O Livro de Mr. Natural ou Mort Cinder.
Mas foi (bem) escolhida como representante da BD (HQ!) brasileira numa colecção que se afirmava diversificada, em origem geográfica, estilos gráficos e narrativos e conteúdos temáticos. E cumpre bem esse papel e um outro ainda: o de mostrar que um romance gráfico (pois, continuo a preferir ‘romance’ a ‘novela’…) pode ser só uma grande bela aventura sem mais propósitos do que divertir e dispor bem, sem o peso emocional de títulos como A arte de voar e O diário do meu pai ou a poesia de A Viagem ou Sharaz-De.
Porque, Bando de Dois é isso mesmo – e não pretende ser mais: um belo divertimento aos quadradinhos. Que parte de uma realidade histórica local, os cangaceiros – tal como Caatinga, de Herman, ou O Cabra, de Flávio Luiz – para apresentar uma história bem ritmada, superiormente narrada através de um traço muito expressivo e com uma excelente utilização da planificação em que abundam os mais variados pontos de vista cinematográficos e a utilização de toda a extensão da página – das páginas – ao serviço da história.


Esta – a que apenas falta, em meu entender, a exposição e posterior resolução do confronto que iria causar as diferentes motivações de Tinhoso e Caveira de Boi – desenrola-se de forma gradual, assente em diálogos certeiros e muito bem trabalhados – tornados aliciantes (para leitores portugueses) pelo sotaque e forma de falar típica do nordestinos – e numa utilização inteligente do sentido de humor, que perpassa por toda a obra de forma sóbria e subtil.
Após a apresentação das motivações dos dois cangaceiros, o plano para levar a bom termo os seus intentos é delineado e posto em prática e a tensão vai crescendo à medida que tudo se encaminha para o inevitável confronto, que o leitor adivinha sem quartel e muito sangrento, até que um grão de areia (não resisti, desculpem…) entra no que parecia uma bem oleada engrenagem e transforma por completo o desfecho, desviando-o do que parecia mais evidente – e mesmo assim esta seria uma bela aventura aos quadradinhos – e introduzindo uma componente surpresa, que prolonga o tom humorístico e eleva (ainda mais) o já de si bom nível de Bando de Dois.

A reter
- O muito apropriado ritmo narrativo.
- A invulgar capacidade de planificação que Danilo Beyruth alardeia.
- O humor fino e inteligente que emana da obra
- O final, inesperado mas muito bem conseguido.

Menos conseguido
- Não sendo uma falha grave, numa obra muito bem desenvolvida, falta o confrontar das motivações dos dois protagonistas que o leitor espera e nunca chega.

Bando de Dois
Danilo Beyruth
Levoir/Público, Portugal, 6 de Maio de 2015
21o x 280 mm, 96 p. , pb, capa dura, 9,90 €

5 comentários:

  1. Li este livro no fim de semana e concordo na quase totalidade com a análise acima. O unico ponto que dioscordo é na necessidade do "esclarecimento" entre os dois cangaceiros. Não transparece (a meu ver) na obra, uma grande tensão entre os dois protagonistas. Estes estão unidos pelo objectivo, mesmo que com razões diferentes. E quando o objectivo de um é concretizado mas o do outro não... isso não implica necessáriamente um confronto entre os dois.

    Não retirando a carga histórica ao "Mr. Natural", notando apenas como exemplo, gostei muito mais desta obra que dessa.

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    1. Caro pco69,
      Concordo que "Não transparece (a meu ver) na obra, uma grande tensão entre os dois protagonistas.", até porque as intenções do segundo são desconhecidas do primeiro, mas o leitor conhece-as e fica à espera do que daí resultará...
      Mas isso é apenas um pormenor numa obra muito bem conseguida e divertida.
      O Livro do Mr. Natural - que pelo seu carácter de colectânea de histórias curtas nem sequer deveria estar numa colecção de 'novelas gráficas' - surge algo datado e perde pela falta de sequência entre as histórias, pois pelo meio faltaram algumas que não estavam disponíveis para reproduzir.

      Boas leituras!

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  2. Pedro Ferreira20/5/15 16:47

    Foi outra dos boas surpresas desta magnifica colecção

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  3. Gostei muito deste "Bando de dois" Pedro, e parece-me até que a própria promoção feita no Brasil deve ter sido bem conseguida com um site e trailer com trilha sonora como por lá se chama. Se um dia o Danilo Beyruth cá vier ao Amadora BD, gostava que me assinasse o livro.

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    Respostas
    1. Homem do Leme,
      Esse foi um dos desafios que coloquei aquando do lançamento da colecção Novela Gráfica: deixarmo-nos surpreender pelas obras editadas...
      E no AmadoraBD, em Beja, na Comic Con Portugal ou noutro sítio qualquer, também espero um dia encontrar-me com o Danilo Beyruth!

      Boas leituras!

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