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09/04/2015

O Livro do Mr. Natural









O Livro do Mr. Natural, é colocado hoje à venda com o jornal Público, numa edição da Levoir.
Sétimo volume da colecção Novela Gráfica, serve de alguma forma de introdução a um dos maiores nomes da banda desenhada underground norte-americana.
Algumas pranchas e a nota de imprensa fornecidas pela editora já a seguir.

Robert Crumb é um dos maiores nomes da banda desenhada americana, e um pioneiro do movimento dos comics alternativos e "underground". Alternativos por serem diferentes das revistas das editoras que dominavam o panorama dos comics de então, quase exclusivamente dedicadas aos super-heróis, e muitas vezes mesmo por serem auto-publicados. E "underground" pela escolha dos seus temas, muitas vezes subversivos e chocantes para a América da época, frequentemente criados sob a influência do LSD, e que obrigavam a que estas revistas fossem distribuídas por vezes de modo clandestino. Criador de personagens tão icónicas como Fritz the Cat ou Mr. Natural, Robert Crumb foi distinguido em 1999 com o Grande Prémio do Festival de Angoulême, e continua a ser um dos artistas de banda desenhada mais controversos da actualidade.

Nascido em 1943, Robert Crumb, para além de autor de banda desenhada, é também um talentoso músico, com uma predilecção particular pelo jazz e folk. O seu trabalho foi inicialmente publicado em várias revistas da época, a Help! (publicada pelo célebre Harvey Kurzman, que deu o seu nome aos famosos prémios profissionais de BD nos EUA, os Harveys), na Cavalier, em cujas páginas se estreou em 1967 a sua mais célebre criação, Fritz the Cat, e na revista Yarrowstalk, onde se estreou o Mr. Natural. Em 1968 lança a Zap Comix - cujos primeiros números foram impressos pelo célebre Charles Plymmell, poeta, escritor e artista gráfica da geração beat, que viveu na mesma casa com Allan Ginsberg, e que conviveu com alguns dos grandes desse movimento, como William Burroughs e Clay Wilson - publicada por Don Donahue, um editor (Apex Novelties) que foi praticamente o fundador do movimento underground comix. Muitas das mais icónicas personagens de Crumb foram criadas sob o efeito de LSD, que tomou regularmente durante os últimos anos da década de 1960.

O primeiro número da Zap foi vendido pelas ruas de São Francisco pelo próprio Crumb, e pela sua mulher Dana, com o stock empilhado dentro do carrinho de bebé desta última! A revista viria mais tarde a acolher muitos outros artistas da cena underground, como Spain Rodriguez, Rick Griffin ou Gilbert Shelton, para citar apenas alguns. A revista trazia na capa do primeiro número a menção "Fair Warning: For Adult Intellectuals Only", uma etiqueta que se poderia aplicar a muito do trabalho de Crumb ao longo dos anos. Como curiosidade, podemos também referir que os dezasseis números da revista, editados ao longo de muitos anos (a sua periodicidade era notoriamente irregular...), venderam muitos milhões de exemplares no total.

Depois da fase dos underground comix, Crumb evoluiu para comics mais auto-biográficos - mas nem por isso menos controversos, e que lhe valeram inúmeras acusações, de misógino e pervertido sexual, até racista, por causa da maneira como muitas vezes representava as mulheres e os afro-americanos nas suas histórias geralmente publicadas numa revista nova que lançou em 1981, e que durou até 1993, chamada Weirdo. A evolução de Crumb era visível, esta revista foi fundada após uma sessão intensa de meditação (e não de LSD!), inspirada por uma tendência mais punk, mas nunca atingiu a popularidade que a Zap tinha atingido.

Ao longo dos anos, Crumb notabilizou-se por muitos outros trabalhos e controvérsias. Ilustrou muitos dos números de American Splendor, de Harvey Pekar, foi objecto de um documentário em 1994, realizado por Terry Zwigoff (um documentário que ganhou o Festival de Sundance, foi aclamado universalmente como um dos melhores documentários daquele ano, e que fez com que a Academia redefinisse o processo de nomeação de documentários, tal foi a indignação por Crumb não ter ganho o Óscar). Crumb instalou-se desde 1991 numa pequena aldeia do Sul de França, onde vive desde então quase como um eremita. Criou uma versão do Livro do Génesis em banda desenhada em 2009, e mais recentemente voltou a surgir no centro das atenções com o cartoon que ilustrou por ocasião dos atentados do Charlie Hébdo em Paris.

Robert Crumb ganhou inúmeros prémios ao longo da vida: em 1991 entrou para Will Eisner Comic Book Hall of Fame, e em 1999 ganhou o Grande Prémio do Festival de Angoulême.

O Mr. Natural foi uma das primeiras personagens recorrentes que Crumb criou, e uma das mais... "mistificantes"! Mas quem é o Mr. Natural? Guru místico que renunciou ao mundo moderno e artificial, charlatão que explora a ingenuidade dos seus seguidores, ou sábio com poderes paranormais, uma honestidade desarmante e... uma paixão pela mulheres? Com esta personagem, Crumb vai satirizar de modo feroz, quer a contra-cultura dos anos 1960, quer a modernidade consumista e superficial.

Nesta antologia do célebre guru, os leitores portugueses poderão descobrir algumas das mais icónicas histórias da personagem, publicadas em várias épocas. Entre elas, podemos assinalar algumas que são particularmente relevantes. Assim, "Mr. Natural encontra-se com Deus" (e a sua segunda parte, "Mr. Natural leva um pontapé no cu"!), em que é expulso do Céu (e perseguido por Deus depois) por dizer que "o Céu é piroso" é uma das mais conhecidas e divertidas histórias do místico maluco. Poderemos também ler a "Origem do Mr. Natural", perdão, de Fred Natural, uma divertida biografia que Crumb escreveu para o número 1 da revista Mr. Natural. Chamamos a atenção também para uma das mais escandalosas (e controversas) histórias que Crumb escreveu, a que envolve Mr. Natural com a famosa Big Baby, a Bebé Grande, que prova que mesmo os gurus mais adoráveis podem ser ambíguos e complexos, sobretudo quando expressam as divagações e repressões do seu autor.

Para retomar as palavras do crítico Craig Hill, "Mr. Natural representa o superego, o melhor da natureza humana - independência e autoconfiança, compaixão, um sentido do eterno e da universalidade. No entanto, os acontecimentos desta história ["Mr. Natural em A Vadiar... de Novo!"], mostram que é óbvio que ele é tão vulnerável aos excessos do id como qualquer outra pessoa. Como personagem notável e complexa de banda desenhada, Mr. Natural fará com que os leitores se sintam divertidos ou envergonhados - ou ambos ao mesmo tempo - durante gerações." E a própria capa deste comic, que é reproduzida neste volume, endereça essas preocupações do autor com a ilustração de Mr. Natural e da Bebé Grande a dançar, enquanto a legenda proclama, "Não se preocupem! Acreditem ou não, ela tem mais de dezoito anos!", numa história que na altura deixou muitos dos leitores de Crumb espantados e chocados.

E finalmente, o leitor poderá ler uma das mais longas e "sérias" histórias de Mr. Natural, em que o próprio autor aparece para justificar o facto de a sua personagem ser exilada para um hospício (mandada internar por um dos seus mais antigos seguidores, Flakey Foont, que representa também em certa medida o próprio Robert Crumb), num verdadeiro discurso fúnebre que marca também a evolução do próprio autor. Saindo da sua fase psicadélica, Crumb enveredaria por outros caminhos na BD, e parece ter querido "enterrar" esta sua criação de uma maneira óbvia. Nunca o fez definitivamente, Mr. Natural ressurgiria em histórias posteriores (incluindo no célebre ciclo da Devil Girl, cujos materiais não estavam disponíveis para integrar esta antologia), mas ficou algum desencantamento de Crumb pela via pela qual o mundo moderno parecia estar a enveredar, pela desaparição dos espaços naturais, dos pequenos negócios e bandas de música locais. Mr. Natural sempre representou um ideal muito individualista e de auto-suficiência, mas não do tipo que identifica o sucesso com a acumulação de riquezas, poder, status, bens materiais e destruição da Natureza.

Por mera curiosidade, podemos referir que existe um Mr. Natural REAL! Este indivíduo, ele próprio um membro proeminente da contracultura dos anos 60, afirma ter sido uma das inspirações para a personagem, e mudou legalmente o seu nome para Mr. Natural, com autorização do próprio Crumb. Ainda hoje vive em São Francisco, onde ensina música (www.mrnatural.net). E que guru místico não se viu envolvido num escândalo de pornografia? Pois fiquem a saber que Mr. Natural foi estrela de um filmo porno (não-autorizado!) chamado Up in Flames, onde contracenou com os Fabulous Furry Freak Brothers (estes últimos também personagens de BD famosos criados por Gilbert Shelton).

Poderão ver aqui uma série de podcasts com Robert Crumb, pesquisando por este título:
John's Old Time Radio Show with Robert Crumb

E uma série de ilustrações da sua mais recente obra, O Livro do Génesis, já lida em As Leituras do Pedro.

E o Mr. Natural foi para o museu, como tema, não como visitante, como poderão ver neste artigo do New York Times: Mr. Natural Goes to the Museum.

O Livro do Mr. Natural
Robert Crumb
Levoir/Público
Portugal, 9 de Abril de 2015
210 x 270 mm, 128 p., preto e branco
capa dura, 9,90 €

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