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20/11/2014

Deixa-me entrar













História sobre a solidão e os transtornos mentais, Deixa-me entrar, assinala a (boa) estreia de Joana Afonso como autora completa.
Um trajecto a seguir (agora) com (mais) atenção.


Já conhecia a Joana Afonso desenhadora. Especialmente de O Baile, obra interessante (apesar de) distinguida com uma excessiva (?) lista de prémios.
As qualidades que já apresentava, mantêm-se: um traço personalizado, agradável – embora nem sempre tão legível quanto seria desejável, em especial aqui e ali ao nível dos rostos -, um bom sentido de composição das pranchas, boa sequenciação em termos narrativos, um trabalho assinalável em termos de cor, bem utilizada para definir momentos, sensações e sentimentos.
Traço, a que Joana Afonso recorre especialmente nesta sua primeira experiência como argumentista, pois em diversas sequências é através do desenho – complementado apenas com pequenos balões/caixas de texto - que ela transmite ao leitor a história de Alberto, lixeiro, e Fernanda, arrendatária do quarto onde ele vive.

A história de dois inadaptados, dois seres perto dos 40 que vivem (quase) à margem da sociedade, mergulhados nos seus mundos, nos seus quotidianos – sempre iguais – presos às suas rotinas, às pequenas coisas que fizeram suas e de que não abrem – não querem abrir – mão.

Uma história serena, intimista, sofrida, assente em emoções – que Joana Afonso consegue transmitir com uma sensibilidade assinalável – para cujo desfecho Alberto e Fernanda terão de contribuir.
Desfecho que, não sendo sempre evidente ao longo da história, também não é surpresa, mas conta com uma frase final – simples, mas de grande força – que expõe o íntimo de um dos protagonistas e dá um renovado sentido ao conjunto, como perceberão lendo esta obra.

Deixa-me entrar
Joana Afonso
Polvo
Portugal, Outubro de 2014
170 x 240 mm, 64 p., cor, brochado com badanas
ISBN 978-989-8513-24-3
11,98 €

1 comentário:

  1. Tanto este "Deixa-me Entrar" como o "Zona de Desconforto" são as boas surpresas da edição deste ano do AMADORA BD.

    A arte da Joana Afonso é algo de sublime, mas é nos argumentos que se sente a sua frescura de ideias. Que as editoras continuem a apostar nela.

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