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17/10/2014

Aú o capoeirista e o Fantasma do Farol










Esta até podia ser uma série oriunda da revista Spirou belga, mas na verdade é criação brasileira e o seu protagonista, Aú, até é praticante de capoeira.
A descobrir já de seguida.
Mas se Aú é capoeirista, se o seu criador é brasileiro, se a história se desenvolve – e se desenvolve bem! – em Salvador, da Bahia, e se por detrás da narrativa está uma lenda local relacionada com um ataque de piratas a um galeão na baía de Todos-os-Santos há alguns séculos, nada disso retira a este álbum a sua universalidade e a possibilidade de ser fruído por leitores de qualquer latitude ou longitude.
Tal como já havia feito no primeiro volume da série – Aú, o capoeirista – Flávio Luiz parte do que conhece, do quotidiano que partilha, daquilo que o rodeia, para nos levar numa aventura, simples e sem pretensões mas bem estruturada que, tendo como ponto de partida o tal ataque pirata e um consequente naufrágio, inclui uma lenda que se embrenhou no imaginário popular ao longo dos séculos, sonhos com uma bela fantasma, um estranho roubo e a procura de um tesouro há muito perdido.
Em relação ao álbum de estreia, Aú surge mais protagonista – e com ele a bem brasileira arte da capoeira – pois a maior parte dos amigos (bem) presentes no primeiro álbum resumem-se agora praticamente só ao seu amigo Dó, e, por isso, é em torno dele, das suas decisões e das suas iniciativas que a história se vai centrar. O que, se o destaca enquanto herói – na linha de uma certa banda desenhada franco-belga de humor e aventura – e não retira à história a capacidade de prender e seduzir o leitor, lhe subtrai um pouco do brilho que o relato de estreia apresentava.
História que, quero frisar, está bem estruturada e desenvolvida ao longo de todo o álbum, sem tempos mortos nem sequências desnecessárias, com um ritmo de leitura rápido mas consistente e com um final que, não sendo inesperado – embora surjam algumas surpresas até esse desenlace – contribui para a unidade do conjunto.
Flávio Luiz, que continua a apostar na auto-edição – e que pode ser contactado através do site que dedica a Aú - enquanto aguarda ser descoberto por um editor atento, justifica que o continue a considerar “um dos mais europeus (?) dos autores de BD brasileiros”, como escrevi na análise a Aú, o capoeirista. Admirador da escola de Marcinelle e de alguns dos seus autores mais destacados, continua a exibir uma grande dinâmica narrativa, um traço grosso, ágil e veloz que se adequa ao tipo de história que conta, e uma grande diversidade na tomada de pontos de vista que são essenciais para uma leitura divertida e agradável – objectivo claro do livro - ao mesmo tempo que demonstra alguns progressos na selecção e aplicação da cor, que, em relação ao primeiro álbum - tem um contributo maior na definição de volumes e distâncias.

Aú o capoeirista e o Fantasma do Farol
Flávio Luiz
Papel A2
Brasil, Julho de 2014
220 x 300 mm, 48 p., cor, cartonado
R$ 55,00

2 comentários:

  1. Obrigado pela analise tão respeitosa e apurada,Pedro.Sinto-me motivado a melhorar sempre para os proximos tomos.Abraços

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    1. De nada Flavio,
      Eu é que agradeço pela agradável leitura que Aú me proporcionou.

      Boas leituras... e mais boas histórias!

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