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16/09/2014

Donald: nos quadradinhos há 80 anos









Três meses depois da sua estreia no cinema, em Junho de 1934, com uma prestação secundária na animação The Wise Little Hen, Donald Duck fazia a sua aparição na banda desenhada, numa adaptação do filme citado.
A continuação está já a seguir.


A publicação teve lugar nos jornais norte-americanos, na página dominical das Silly Symphonies, assinada por Ted Osborne (1901-1968) e Al Taliaferro (1905-1969). A história durou até Dezembro e, a 10 de Fevereiro do ano seguinte, Donald surgia nas tiras diárias de Mickey Mouse, em publicação desde 1931, desenhado por Floyd Gottfredson (1905-1986).
O seu carácter explosivo, colérico e quezilento e a tendência para armar confusões contribuíram rapidamente para o seu sucesso – no papel e nos ecrãs – pelo que não surpreendeu que a partir de Agosto se tornasse o protagonista das Silly Symphonies.
A dupla Osborne/Taliaferro aos poucos transformou o provinciano Donald num habitante citadino. Ao mesmo tempo encolheram-lhe o bico, deram-lhe um olhar mais expressivo e colocaram-no como responsável pelos seus sobrinhos trigémeos e traquinas, Huey, Dewey e Louie – que conhecemos como Huguinho, Zézinho e Luisinho. Filhos da sua irmã Della Duck, fizeram a sua primeira aparição a 17 de Outubro de 1937, mas o carácter passageiro da sua visita rapidamente passou a definitivo e ainda hoje vivem com Donald. Ao longo dos tempos tornaram-se mais ajuizados e responsáveis, para que fosse maior o contraste com a postura conflituosa do tio, que, pelo contrário, não melhorou nada ao longo dos anos.
Ainda em 1937, na primeira história feita para uma revista, o pato mais famoso da Disney conheceria aquela que viria a ser a sua namorada Daisy Duck (Margariada) que na época se chamava Donna. Criada por William Ward, para a revista inglesa Mickey Mouse Weekly #67, foi a primeira vez que uma BD de Donald foi escrita e desenhada fora dos EUA algo que nas décadas seguintes se tornaria normal, pois, entre outros, seria recriado na Dinamarca, Brasil e Itália, sendo oriundas deste último país as histórias actualmente publicadas em Portugal.
A introdução do seu carro, com a significativa matrícula 313, representativa do seu carácter azarado, e o alargamento do círculo das suas relações com a introdução de Grandma Duck (Vovó Donalda, 1943), Scrooge McDuck (Tio Patinhas, em 1947), Gladstone gander (Gastão, 1948) ou Fethry Duck (Peninha, 1964), entre muitos outros, vieram dar uma nova dimensão às aventuras de Donald.
Para este aspecto contribuiu decisivamente Carl Barks (1901-2000), o desenhador dos patos, que fez de Donald um pato mais humano, ao agravar os seus maiores defeitos: a tendência para a preguiça e para adiar para amanhã o que devia ter feito ontem, o seu carácter colérico, a facilidade com que cria inimizades ou provoca desconhecidos, multiplicando as suas aventuras urbanas, entremeadas com as grandes caçadas a tesouros perdidos, patrocinadas pelo seu Tio Patinhas.
Embora o (re)conhecessem como trapalhão, azarado e irritadiço, os leitores de BD Disney em 1969 descobriram uma nova faceta de Donald, quando os italianos Guido Martina e Giovan Battista Carpi o transformaram no Superpato (Paperinik no original italiano) para se vingar dos sucessivos desaires sofridos às mãos do Tio Patinhas e do Gastão, como visto na recente Disney Especial Super-Heróis, ainda nas bancas. O sucesso alcançado – também graças aos equipamentos inventados pelo professor Pardal - manteve este super-herói Disney em actividade até aos nossos dias.
Uma outra faceta de Donald, decidido e corajoso, é a de agente secreto, sob a identidade de Double Duck, personagem criado em 2008 por Fausto Vitaliano e Andrea Freccero, que a Goody introduziu na Disney Especial Double Duck e com presença recorrente marcada na Hiper, desde o número #20 até ao #24.
Mas, nestes ou noutros contextos, sozinho ou acompanhado, 80 anos depois, a entrada em cena de Donald continua a ser sinónimo de divertimento e de peripécias sem fim.

(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 16 de Setembro de 2014)

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