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26/09/2014

Ceux qui me restent









Este é (mais) um livro que aborda a doença de Alzheimer. De forma sensível e terna, mas também forte e chocante.
Algumas pistas de leitura já a seguir, embora recomende vivamente a leitura do álbum antes das linhas que se seguem. O aviso fica porque, da forma como o álbum está construído, será melhor fruído sem saber pormenores que a seguir adianto. A continuação desta leitura fica então por vossa conta e risco.

Ceux qui me restent aborda a relação de Florent com a sua filha Lilie. Viúvo muito cedo, teve que a educar sozinho. Com pouco jeito (ou esforço) foram ficando entre eles questões por resolver, tensões latentes, incompreensões mútuas, desavenças que a levaram a deixar a casa paterna ao atingir a maioridade. E a não visitar o pai durante duas décadas.
Agora, Florent está num lar e Lilie visita-o todas as semanas. Tenta(m) recuperar algum do tempo perdido.
Só que Florent tem Alzheimer e, na sua mente, tempo e espaço misturam-se e confundem-se. Ele não reconhece, muitas vezes, a jovem que o visita. Vive atormentado por pesadelos obsessivos recorrentes, por situações do passado que – na sua mente doente – não consegue resolver, cujo final não recorda…
Desta forma, o álbum – como a mente de Florent? – avança e recua no tempo, deixa pontas soltas, memórias truncadas, situações por definir, momentos marcantes pendurados no esquecimento, apresenta quebras bruscas como certamente Florent as experimenta…
De forma crua – acentuada pelo traço um pouco duro, despojado, muitas vezes pouco mais do que esboço, pelas vinhetas de grande formato, quase vazias e pela coloração de paleta limitada, muitas vezes com um único tom por página – e de certa forma chocante, pelo realismo cruel que o livro exala, pelo acompanhamento do delírio íntimo de Florent, vamos vagando com ele nas idas e vindas da sua mente torturada, chegando ao final, sem saber - tal como ele - na verdade, muito do que se passou, quando se passou, como se passou…
Assim, pela construção da narrativa, cujo ritmo é ditado pelas consequências de Alzheimer – omnipresente nos seus efeitos, mas não enquanto mote directo - de certa forma experimentamos o vazio, o apagamento da memória que afecta as vítimas desta doença, num livro que consegue de forma subtil mexer com as nossas emoções.

Nota final
Ceux qui me restent integra a colecção Grand Angle – a seguir com atenção e de que já destaquei aqui Un petit livre oublié sur un banc – que pode (deve) ser espreitada no seu (novo) site.

Ceux qui me restent
Colecção Grand Angle
Damien Marie (argumento)
Laurent Bonneau (desenho)
Bamboo Éditions
França, 27 de Agosto de 2014
152  p., cor, cartonado
ISBN 978-2-81893-188-2
EAN 2818931886
21.90 €

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