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18/08/2014

Mundo de Aventuras nasceu há 65 anos












A 18 de Agosto de 1949 chegava aos quiosques nacionais uma nova publicação infanto-juvenil: intitulava-se O Mundo de Aventuras e iria alimentar os sonhos de milhares de leitores de várias gerações.
A evocação vem já a seguir.


Esse número inaugural, dirigido por Mário Aguiar, proprietário da Agência Portuguesa de Revistas, distinguia-se desde logo pelo seu formato, um tablóide generoso, superior aos jornais actuais, e pela capa e contracapa em quadricromia. Tinha 12 páginas e custava 1$50.
O seu conteúdo definia já o que seria a sua orientação – embora com algumas oscilações naturais - ao longo de quase quatro décadas: um olhar especial para a produção portuguesa, representada por João dos Mares, de Carlos Alberto Santos, e predominância de heróis norte-americanos – nove séries em dez, entre as quais Steve Canyon, Rip Kirby, Johnny Hazard e Flash Gordon (ver caixa). Eram histórias “aos quadrados”, lia-se no editorial, “apresentadas ao mesmo tempo das revistas americanas e inglesas do género”. Talvez por isso, todas começavam a meio!
Menos de um ano depois, no n.º 45, O Mundo de Aventuras – ainda com o “O” que viria a perder mais tarde – já dirigido por José de Oliveira Cosme, reduzia o formato para próximo do A4, aumentava as páginas e adoptava um colorido mais tradicional na época, com aplicação de apenas uma cor em algumas páginas. A tanto obrigava a concorrência, na altura personificada pelo Mosquito mas que ao longo das décadas iria ser travada com o Diabrete, o Cavaleiro Andante ou o Tintin.

Para atrair leitores, passou a oferecer separatas – agora diríamos pósteres - que se tornaram célebres e são hoje raríssimas: a primeira foi “uma bela fotogravura impressa por Bertrand Irmãos e ilustrando a equipa de futebol do Benfica que ganhou recentemente a taça latina”. Naturalmente predominavam os desportistas, com os jogadores de futebol à cabeça, mas Amália Rodrigues, o toureiro Manuel dos Santos ou a Miss Portugal também fizeram parte da lista. Em simultâneo, começavam a surgir as edições “paralelas” apadrinhadas pela revista: Biblioteca Mundo de Aventuras, Espaço, Guerra, Selecções, etc.
Aquela, foi a primeira de várias mudanças que se seguiriam, passando pela inclusão de quadricromia em toda as páginas, regresso ao preto e branco, opção por histórias completas, publicação exclusiva de westerns e, já nos anos 1960, a diminuição do formato para um quarto do original, que obrigou a cortes, montagens e mutilações nas histórias publicadas, inimagináveis hoje em dia.

Publicado durante o regime salazarista, o Mundo de Aventuras, como as outras publicações da época, teve de fazer cedências e concessões, fintas e desvios, para publicar o seu conteúdo infanto-juvenil.
Logo no número inicial, embora por influência espanhola, Steve Canyon, Flash Gordon e Alley Oop viraram Luis Ciclone, Roldan e Trucutu.
Mais tarde, porque os heróis deviam dar bom exemplo, passaram a ser portugueses: Johnny Hazard passou a João Tempestade, Rip Kirby a Rúben Quirino, Big Ben Bolt a Luís Euripo e Flash Gordon a Capitão Raio, entre muitos outros.
A posse da Comissão de Censura para a Literatura Infantil, em 1950, similar ao acontecido em Espanha, França, EUA…, fez aparecer na capa a legenda "Semanário juvenil para maiores de 17 anos” (!), para contornar algumas limitações, mas não evitou que, mais tarde, decotes e saias curtas fossem retocados para se tornarem “decentes”, cenas românticas de beijos fossem suprimidas e as armas empunhadas por heróis e bandidos apagadas, ou escondidas por borrões. As armas, porque os seus efeitos mantinham-se!

Finalmente, a 4 de Outubro de 1973, deu-se a mudança mais drástica: a revista voltou ao n.º 1 e, nesta segunda série, adoptou  de novo o tamanho A4.
Cerca de um ano depois, já sob a coordenação de Jorge Magalhães, reduziria o formato para próximo do comic-book e, mantendo a abertura aos autores portugueses e os heróis que a tinham consagrado – Fantasma, Mandrake, Rip Kirby, Flash Gordon… - abria-se também aos comics americanos – Lanterna Verde, Arqueiro Verde, Warlock, John Carter de Marte… - e à banda desenhada europeia – Thorgal, Paul Foran, Bernard Prince, Comanche – iniciando uma das suas fases mais estimulantes, que duraria cerca de 450 números, e incluiria a popular secção Mistério… Policiário, coordenada pelo Sete de Espadas, que propunha aos leitores a resolução de palavras cruzadas e enigmas policiais.
Uma breve passagem por um formato superior e a inclusão de cor nalgumas páginas, seria o canto do cisne da revista que decaiu progressivamente, até ao final adivinhado, a 15 de Janeiro de 1987, custava já 50$00.
Passados 48 anos, 1841 números e muitos milhares de páginas, fechava aquela que foi uma máquina de sonhos para sucessivas gerações e a revista portuguesa de histórias aos quadradinhos de maior duração. Os tempos eram outros, a maioria das revistas de BD tinham já acabado e os leitores de BD tinham aderido aos álbuns.

(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 18 de Agosto de 2014)

14 comentários:

  1. Grande trabalho o seu, Pedro Cleto, neste breve, mas bem documentado, panorama dedicado ao "Mundo de Aventuras", uma das mais importantes revistas de BD portuguesas.
    Felicito-o sinceramente.
    Abraço,
    Geraldes Lino

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    1. Obrigado, Lino!
      O Mundo de Aventuras foi muito importante para mim, pois acompanhei-o ao longo de mais de uma década e foi nele que fiz a minha "formação" aos quadradinhos.

      Boas leituras!

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  2. "Os tempos eram outros, a maioria das revistas de BD tinham já acabado e os leitores de BD tinham aderido aos álbuns."

    Como assim as revistas tinham acabado se a Abril Morumbi editou Homem-Aranha e Batman mais ao menos nessa altura!!!???
    De resto optimo texto de uma revista que nunca li.

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    1. Caro Opimus,
      Semanas depois - devido ás férias - aqui estou a responder.
      O parágrafo que transcreves - e ao qual reconheço ambiguidade - referia-se às revistas com banda desenhada americana, inglesa e franco-belga que durante décadas tinham predominado no mercado português e das quais o Mundo de Aventuras foi o último grande representante...
      As edições Marvel e Disney em português estavam a dar os primeiros passos de uma nova história!

      Boas leituras!

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  3. Excelente evocação de uma grande revista, em várias das suas fases, que também muito marcou o meu imaginário, desde os 11 anos, e mais tarde a minha própria vida profissional. Sem ela nunca me teria dedicado à BD!
    Parabéns e um abraço do
    Jorge Magalhães

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    1. Caro Jorge Magalhães,
      Com o devido pedido de desculpas pelo hiato em responder, devido ás férias - bem necessárias - agradeço as suas palavras.
      E se o Jorge não se teria dedicado à BD sem o Mundo de Aventuras, sem ele eu possivelmente hoje não lia BD...
      Boas leituras!

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  4. Parabéns pelo artigo. gostei muito.
    Continuação de boas leituras e...inspiração e paixão para estes textos

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    1. Caro Homem do Leme,
      Aqui vai o agradecimento tardio - motivado pelas férias! - pelas suas palavras.
      A inspiração e a paixão vão continuar com certeza, assim o tempo ajude e comentários como o seu continuem a dar alento.

      Boas leituras!

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  5. paulo pereira19/8/14 20:45

    Obrigado pela lembrança, para quem está quase a terminar a colecção (os sites de leilões ajudam um pouco) é uma satisfação poder verificar a importância histórica que a mesma teve/tem.

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    1. Caro Paulo,
      Obrigado - atrasado... - pelas suas palavras.
      Andamos então pelos mesmos sítios, atentar completar esta colecção.

      Boas leituras!

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  6. Parabéns por esta perfeita síntese do mundo da Mundo de Aventuras.

    Tenho preferência por duas fases em que a primeira é a do "tamanho gigante" (série 2 do 01 ao 50) com boa qualidade do papel (fininho, meio lustroso) , formato em que não é necessário forçar a vista para a arte ;-)... com um pequenino contra: algumas das histórias parecem compilações de "tiras de jornal" sem qualquer revisão. Uma das "teorias da conspiração" para o desaparecimento desse formato, é que eram difíceis de ler às escondidas dos pais e... professores! Mas é só teoria - o mais certo é que foi a crise do papel que surgiu na altura!...
    A outra fase preferida é logo a seguinte, mesmo com uma redução do tamanho para "metade"(! ;-) ) com um misto de histórias "made in US" e franco-belgas com grandes nomes em que se pode deslumbrar a arte sem o "disfarce" da cor. ;-D
    ... E o pior período é a última fase da 1ª série com os crimes (= cortes) sobre as pranchas (será que acrescentaram palavreado à história que resultou em "enormes" balões que provocaram esses cortes?) que desespera qualquer leitor de BD - mesmo que a história seja interessante (e há muitas) com esses cortes grosseiros na arte, em vez de BD estamos a ler um novela...

    Para finalizar este longo comentário, o desaparecimento da "Mundo de Aventuras" foi natural devido à grande concorrência da cor - no mesmo período, existia o Jornal da BD com grandes nomes da BD ( que compensa a má qualidade do papel...), totalmente a cores e só mais 20$00 que o "Mundo de Aventura"... que "educa" os leitores para o "boom" dos álbuns da Meribérica. "Ah, mas o Mundo de Aventuras" sobreviveu ao Tintin!" - pois..., mas nessa altura a diferença entre leitores de BD "ricos" e "pobres" era grande ( conjugada com falta de alternativas de outros entretimentos de massas juvenis) em o Tintin não tinha concorrência na sua faixa de leitores. Nos anos 80, a BD tornasse mais igualitária ( preços + - razoáveis para todos) e - vou bater mais uma vez nos mesmos... - as bancas (quiosques, papelarias... ) passaram a receber outras revistas (outros temas) com imagens mais apelativas... e as BDs passam para o fundo da caixa, desaparecendo da vista e o que não vemos, não compramos!...

    Abraço
    ASantos


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    1. Caro ASantos,
      Um agradecimento - com o atraso que reconheço, motivado pelas férias - pelo complemento que fez ao meu texto.

      Boas leituras!

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  7. Anónimo3/9/14 18:39

    Pedro, o acordo ortográfico é escroto mesmo. Se pra nós, brasileiros, que temos fama de estuprar a língua, ele já é ridículo, que dirá pra vocês. Coisa de gente bem jeca. Sabe o que é jeca? Enfim, vamos ter que aturar. Triste.

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    1. Caro Anónimo:
      É verdade, este acordo não tem pés nem cabeça, deve ter servido apenas para uns amigalhaços venderem mais uns livros...

      Boas leituras... em português correcto!

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