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28/07/2014

I Guerra Mundial nos quadradinhos da época











A dar os primeiros passos quando a I Guerra Mundial teve início, a banda desenhada – de braço dado com o cartoon e a ilustração – não se coibiu de fazer um retrato desse conflito.
Descubra já a seguir como os quadradinhos da época o mostraram.


Os jornais – com o aumento da escolaridade – eram lidos em grande escala, atingindo tiragens hoje invejáveis e as notícias da guerra eram as mais procuradas. No seguimento do crescimento da popularidade do desenho de imprensa, ilustradores, caricaturistas, cartoonistas e autores de BD fizeram do conflito o tema da sua arte, fosse ela publicada em títulos generalistas, nos seus suplementos ilustrados, em publicações destinadas a aumentar o moral das tropas ou nos jornais humorísticos nascidos na época.
Entre estes, em França, destacaram-se títulos como Le Canard Enchainé (em publicação desde 1915), Les Trois Couleurs – o azul, branco e vermelho da bandeira francesa – com 106 números entre 1914 e 1917, ou La Baïonette, 99 números de 1915 a 1918, que mostravam em banda desenhada (então ainda sem balões, com o texto sob as imagens) ou através de ilustrações, como era na realidade guerra: o dramático quotidiano das trincheiras, a violência dos combates corpo a corpo, a falta de alimentos, a alegria dos que regressavam, a dor dos que perdiam entes queridos…
Nas páginas daquelas e doutras publicações, o primeiro grande conflito mundial foi retratado de forma realista ou satírica, caricaturando os intervenientes ou contando as suas façanhas, seguindo os acontecimentos históricos ou ficcionando-os, exaltando os franceses e enxovalhando os alemães – os boches – de repente sinónimos de todos os defeitos e males do mundo.
Nalguns casos (quase) em directo, como diríamos hoje, pois a arte era criada no local pelos ‘poilus’ (nome que os franceses davam aos soldados das trincheiras), entre os ataques, os contra-ataques e as saudades de casa. E se alguns desses autores foram esquecidos pelo tempo, outros tornaram-se referências como Gus Bofa, Léon Pénet, Étienne le Rallic ou Paul Iribe.

Para esse conflito, involuntariamente mas enquanto concidadãos dos que lá se batiam e perdiam a vida, foram arrastados heróis dos quadradinhos que os leitores já conheciam. Os mais relevantes foram Bécassine e os Pieds-Nickelés.
Estes últimos, criados por Louis Forton em 1908 e recorrentemente retomados até aos nossos dias, eram na sua origem malandros e meliantes que a guerra regenerou, transformando-os em patriotas, quando comparados com o inimigo alemão que ridicularizaram em sucessivas peripécias mostradas nas páginas desenhadas.
Quanto à pobre Bécasine, criação de Emile Pinchon em 1905, a criada iletrada, distraída e trapalhona, ouvindo falar da guerra contra os boches, procurou em vão nos atlas a “Bóchia” de onde eles vinham. Quando finalmente percebeu que o inimigo eram os alemães, cruéis, ladrões e imorais, a primeira heroína da história da BD, não hesitou e, na retaguarda, como tantas outras mulheres, colaborou no esforço de guerra, como voluntária da Cruz Vermelha.


Foi desta forma, num misto de retrato quotidiano, de humilhação do inimigo e de exaltação dos valores patrióticos, que a banda desenhada mostrou a I Guerra Mundial, saindo dela mais sólida e competente, pronta para outros voos pelos quadradinhos de papel.

Participação portuguesa
Se muitos portugueses participaram activamente na I Grande Guerra, ilustradores, cartoonistas e autores de BD, traçaram-na no papel, com linhas vivas, inquietas ou mordazes, com humor, realismo ou ficcionando-a.
Entre eles, destaca-se Stuart Carvalhais, um dos maiores artistas gráficos do seu tempo, não só pelo seu virtuosismo, mas principalmente porque envolveu no conflito os seus Quim e Manecas, dois dos poucos heróis recorrentes que a BD nacional pode contar.
Na verdade, ano e meio antes de se iniciar a participação militar lusa, Quim e Manecas, passavam de miúdos traquinas, autores de partidas e disparates, a espiões por conta dos aliados, acabando prisioneiros dos alemães quando viajavam para os Estados Unidos. Invertendo rapidamente a situação em poucas semanas foram aviadores, batalharam nas trincheiras, bombardearam – com ratos! – as linhas inimigas alemãs e – praticamente sozinhos – venceram a guerra - que na (dura) realidade se arrastaria ainda por mais alguns anos. 


(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 28 de Julho de 2014)

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