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29/05/2014

Yeshuah III: Onde tudo está













13 anos depois, Laudo Ferreira (com Omar Viñole) conclui a tarefa (hercúlea) a que se propôs: contar em quadr(ad)inhos uma versão humanizada da vida de Jesus Cristo.
O resultado, lido já a seguir.


Antes de entrar propriamente na obra, não posso deixar de lembrar que Laudo Ferreira é um dos autores convidados do X Festival Internacional de BD de Beja, pelo que estará naquela cidade alentejana no próximo fim-de-semana – 31 de Maio e 1 de Junho – (também) para apresentar esta obra.

Onde tudo está, tomo final da trilogia que inclui também Assim em cima assim embaixo e O círculo interno o círculo externo, aborda as últimas semanas da vida de Jesus, nomeadamente a morte do seu pai, a ressurreição de Lázaro, a entrada triunfal em Jerusalém e a sua prisão, condenação, crucificação e ressurreição.
Fá-lo, mais uma vez, com recurso a uma planificação muito dinâmica e diversificada, onde se espraia a arte pormenorizada de Laudo e Viñole que explode recorrentemente em grandes planos de uma enorme expressividade que ajudam a pautar o ritmo narrativo e a marcar os momentos de maior tensão.
Versão pessoal, que combina ficção, base bíblica, tradição e informação recolhida em diversas fontes, mostra especialmente um homem (ou um Deus?) consciente do peso da missão que tem a desempenhar. Peso que se torna tão maior, quanto mais parece que todos os que o rodeiam não conseguem perceber o alcance e a dimensão das suas palavras e dos seus actos.
Isso, faz de Yeshuah (ou Jesus) alguém sozinho e isolado – quase abandonado – mesmo entre os seus amigos ou no meio de grandes multidões.
Mais próximos dele surgem Miriam (Maria) – com um papel marcante e fundamental em todo o relato – e, surpreendentemente – ou talvez não… - Yehudah ish Kirioth (Judas Iscariotes). Este último, arrisco-me a escrevê-lo, embora dividido quanto à sua própria interpretação das palavras do Messias, é quem melhor entende a sua missão e, mais do que isso, quem claramente vê como a incompreensão e a dúvida – provocadas pelo desejo de O adaptar à vontade própria de cada um em vez de se abrirem a Ele -  magoa Yeshuah. É, aliás, por isso, que tenta intermediar um encontro entre Ele e os chefes religiosos judeus, que estes acabarão por transformar numa armadilha para Yeshuah. Laudo, afasta, assim, Yehudah/Judas do papel de traidor consciente que é apresentado na Bíblia, tornando-o mero peão e (também) vítima de algo maior que (também) ele não entendeu totalmente.
Apesar do propósito de humanização ser a base em que Laudo trabalhou todos estes anos, pela forma aberta como conta a história e pelas diversas pistas que fornece à interpretação dos leitores, a par do rigor que – notoriamente - presidiu ao seu trabalho, a trilogia Yeshuah pode – e deve – ser lida (mesmo) por aqueles que têm convicções profundas – e não falo dos que seguem meras tradições – porque mesmo discordando – naturalmente - de algumas passagens do livro, poderão descobrir uma outra dimensão para as suas crenças.

Yeshuah III: Onde tudo está
Laudo Ferreira (argumento e desenho)
Omar Viñole (arte-final)
Devir
Brasil, Maio de 2014
165 x 240 mm, 240 p., pb
brochada, R$ 30,00

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