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27/05/2014

La Gloire d’Albert











O preocupante crescimento da extrema-direita nas recentes eleições europeias, nomeadamente em França, confere uma nova actualidade a este álbum, protagonizado por Albert, um anónimo militante dum movimento análogo.
Descubra porquê, já a seguir.


Nova entrada do mini-ciclo que As Leituras do Pedro estão a dedicar a Étienne Davodeau, a pretexto da sua presença, no próximo fim-de-semana, no X Festival Internacional de BD de Beja, recupera o texto Por uns Momentos de Glória, publicado no Jornal de Notícias de 5 de Outubro de 1999:

La Gloire d’Albert, segundo Étienne Davodeau (…) “conta o assassinato de um líder de extrema direita por dois pequenos esquerdistas, um pouco idiotas. Um admirador da vítima, também não muito inteligente, é a única testemunha e sente-se investido de uma missão: a vingança. Mas como não sou Tarantino, tudo vai falhar lamentavelmente.
Vai falhar, entenda-se, do ponto de vista de quem espera um crescendo de violência gratuita, motivada pela vingança. Mas não falha, de forma alguma, para quem já conhece o autor e os seus argumentos sólidos e lúcidos sobre o quotidiano.
Albert, o herói – só aos seus próprios olhos, escreva-se desde já – é o pobre faz tudo da mercearia do bairro, que alcança a glória em breves aparições, como figurante voluntário, numa peça de teatro de sucesso (local) que exalta os valores conservadores do partido  a que aderiu e de cujas milícias anti-droga - criadas pelo dirigente assassinado – faz parte, porque é o mínimo que o partido espera dele.
Por isso, quando prende os dois assassinos, não é tanto movido pelo desejo de vingança, mas sim para ter um momento de glória numa vida cinzenta e apagada.
O mesmo se aplica, também, a um dos assassinos, que participa no atentado pelos ideais de esquerda em que acredita e que, por isso, hesita em receber ou não a sua parte do pagamento.
O outro, de um cinismo a toda a prova, é movido apenas pelo dinheiro que vai receber; não tem, por isso, nada de idiota para sobreviver – e até vencer – numa sociedade individualista e consumista.
A narrativa decorre num tom quase intimista, mostrando de forma inteligente quão próximos estão os dois extremos aparentemente em confronto, e o que move cada uma das personagens até ao final inesperado, em que o recurso á violência surge como justificação absurda – mas de uma lógica incontornável – para a vitória de uma via m oderada )?) e pacífica (?), que ilustra cruamente até que ponto pode descer o ser humano sem escrúpulos nem ideais, só com ideais limitadas e limitativas, demonstradoras de um vazio mental que é assustador, porque é espelho fiel de uma sociedade em que se atropela tudo e todos por momentos passageiros de (vã) glória.

Un monde si tranquille #1
La Gloire d’Albert
Étienne Davodeau
Delcourt
França, Setembro de 1998
225 x 295 mm, 48 p., cartonado
12,90 €

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