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19/03/2014

Lâcher prise



Se são diversas – e nunca serão demais – as obras aos quadradinhos (ou não…) que abordam as perseguições aos judeus por parte dos nazis durante a II Guerra Mundial, são menos aquelas que mostram os efeitos que essas experiências traumáticas provocam na vida daqueles que a elas sobreviveram.
Lâcher prise, que surge na sequência de Seules contre tous, narra a forma – surpreendente? – como a autora reage ao pedido do filho para o ajudar a conseguir a nacionalidade húngara – que a mãe teve – para ir viver para a Alemanha.

Análise de um relato forte e profundamente sofrido já de seguida.

Se em Seules contre tous Katin privilegiara uma escrita de urgência, como que se a obra funcionasse como catarse de memórias (distorcidas e) reprimidas, o que primeiro surpreende agora é a dificuldade da autora encarar o ‘retorno’ do filho às nações que ela se habituou a odiar - a sua Hungria natal onde tanto sofreu, e a Alemanha, responsável por esse sofrimento – como uma traição e mesmo um desrespeito.
Por isso, sem dúvida, ao contrário do tom premente do primeiro, este é um livro onde a acção se demora, onde se adivinha a guerra íntima da autora, traduzida até na forma como transpõe para o papel a génese da própria obra, mostrando como tudo parecia contribuir para a afastar desse momento. Como se, de alguma forma, isso contribuísse para a obrigar a encarar de frente a nova situação.
É mostrando os sucessivos avanços e recuos, confron-tando-se com algumas memórias e fantasmas, sentindo a incompreensão de alguns, expondo mesmo as consequências físicas que a situação provocou, que Miriam Katin, num expressivo traço em lápis de cor, vai revelando como toda aquela situação a afectou profundamente e como conseguiu, finalmente lidar com ela.
Tudo isso, faz de Lâcher prise – mais do que do livro anterior? – um livro perturbador e incómodo em que a autora confessa como tudo aquilo que passara há tantos anos continua vivo e a condicionar o que ela é e faz mais de meio século depois…




Lâcher prise
Miriam Katin
Futuropolis
França, Janeiro de 2014
195 x 265, 152 p., cor, cartonado, 22,00 €

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