Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

27/02/2014

Daredevil: 50 anos














Os cegos vêem, os surdos ouvem e os coxos e aleijados correm e voam.
Milagres? Não, heróis de banda desenhada!

Há 50 anos, atravessando um período de grande criatividade Stan Lee imaginava mais um super-herói para a Marvel: chamava-se Daredevil e tinha a particularidade de ser… cego.

Como acontecera com outros super-heróis já imaginados por Lee – Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Hulk – na origem dos seus poderes estava um acidente, narrado na revista com o seu nome, onde se estreou em Fevereiro de 1964, desenhado por Bill Everett: o jovem Matt Murdock ao evitar o atropelamento de um homem de idade, é atingido pelo conteúdo radioactivo dos barris que o camião transportava, perdendo completamente a visão. Essa perda seria compensada pelo extraordinário desenvolvimento dos outros sentidos, que lhe permitiriam fazer uma vida quase normal.
Filho de um pugilista caído em desgraça, aprendeu com o pai o significado das palavras esforço e justiça e, quando o progenitor foi assassinado por bandidos por se recusar a vender os seus combates, tornar-se-ia num justiceiro mascarado apostado em tornar o seu bairro de Hell’s Kitchen num local mais seguro.

Combinando essa faceta com a sua carreira de advogado, Murdock, com o tempo, devido à sua postura intransigente com a injustiça e o crime, criou diversos inimigos, entre os quais o Rei do Crime e Bullseye.
Durante muitos anos herói da ‘segunda divisão’ da Marvel, saltaria para a ribalta nos anos 80, quando Frank Miller se tornou o responsável pela escrita das suas histórias, sendo memorável a saga Born Again (Demolidor: Renascido, na recente edição da Levoir/Público) que narra a sua queda, perda do emprego e dos amigos, e a posterior redenção. O seu relacionamento intenso mas atribulado com Elektra ou a Viúva Negra estão na origem de outras das suas histórias mais marcantes.

Ao contrário do que se possa pensar, Daredevil não é o único nem sequer o primeiro super-herói com alguma limitação física. A estreia, possivelmente, coube em 1941 ao Capitão Marvel Jr., um órfão aleijado na sua versão humana, que ganha superpoderes ao pronunciar a palavra “Shazam”. Na DC Comics encontramos igualmente o Joker e o Duas-Caras, vilões que sofrem de aberrantes deformações faciais, ou Barbara Gordon, filha do comissário com o mesmo nome e primeira Batgirl, que ficou paraplégica após um selvagem ataque do Joker, assumindo a identidade de Oráculo.
Na Marvel, Thor é coxo na sua identidade secreta original de Donald Blake, o professor Xavier, mentor dos X-Men, apesar de ser um dos mais poderosos telepatas está preso a uma cadeira de rodas, Nick Fury, director da SHIELD, é cego de um olho, e Tony Stark, alter-ego do Homem de Ferro, tem uma deficiência cardíaca, entre outros exemplos de seres que nos habituámos a distinguir pelos seus poderes extraordinários.

Com outros propósitos e de outras latitudes (aos quadradinhos) chegam Dorinha (cega) e Luca (um paraplégico que se desloca em cadeira de rodas), duas criações de Maurício de Sousa introduzidas na Turma da Mônica em nome da inclusão social, para aproximar o bairro do Limoeiro do mundo real com que os seus leitores contactam diariamente.
Com menor destaque, habitam também por lá Humberto, que é surdo, ou André, autista.
Tati, vítima de Síndroma de Down, é mesmo a protagonista de Turma da Mônica: Viva as diferenças!, uma edição especial lançada em 2012, no Dia Internacional do Síndroma de Down.
Esta mesma doença afecta Logan, um menino real cuja vivência o pai transpôs para a BD online A Vidacom Logan, como forma de mostrar uma realidade que muitos desconhecem.



Deste lado do Atlântico há também diversos exemplos. O mais famoso será com certeza o (muito) surdo professor Tournesol, companheiro de aventuras de Tintin, o que provoca muitas gargalhadas e o desespero do Capitão Haddock.
Bouncer, um maneta criado por Jodorowsky e Boucq, protagoniza o western hiperviolento que tem o seu nome e está integralmente editado em português, tal como Silêncio, uma obra-prima dos quadradinhos assinada por Didier Comés, que coloca um mudo atrasado mental como alvo da maldade e da intolerância de uma pequena aldeia.
Ainda em português, em edições da Surd’Universo, estão editados Léo, o puto surdo  e Surdos,100 piadas, ambos do francês Lapalu, visões bem-humoradas do quotidiano de quem não tem audição.
Estes exemplos, não ficariam completos sem uma referência a um dos mais famosos heróis dos quadradinhos, Astérix que, claramente, sofre de… nanismo!

(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 25 de Fevereiro de 2014)

2 comentários:

  1. Parabens Demolidor uma história que tem boa arte é o Homem sem Medo do Miller/Romita Jr e claro Demolidor Amarelo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, Optimus,
      Essas são duas boas histórias do Demolidor e ambas foram publicadas em português.

      Boas leituras!

      Eliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...