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21/01/2014

Super Pig: O impaciente inglês










Uma das coisas que mais me tem agradado em Super Pig é a forma como Mário Freitas tem conseguido alternar entre vários registos – da acção ao humor, passando pela intriga (também política) - utilizando sempre a mesma personagem.
Esse não é, no entanto o único atractivo de O impaciente Inglês, como veremos já a seguir.


Na verdade, após algumas hesitações entre as duas primeiras mini-séries, Mário Freitas – porque, não haja dúvidas, este é um projecto de argumentista - começou a construir, de forma consistente, um universo que tem sabido explorar e expandir gradualmente, ajudando-nos entrar no seu âmago e a conhecer (cada vez) melhor quer o jovem Pig, quer o seu pai.
Outro dos seus trunfos tem sido a capacidade demonstrada para escrever diálogos sólidos, credíveis e capazes de ritmar adequadamente a narrativa, independentemente do tipo de registo em que esta se desenrola.
Isso é mais uma vez notório na presente edição, de forma bem destacada até nas páginas em que a acção no presente decorre em simultâneo - em termos de diálogos – com as memórias do jovem Pig acerca das suas ambições de vida. O que merece destaque suplementar, porque desta vez estamos perante um relato bem trabalhado, que obriga a leitura (mais) atenta – também devido à opção de textos em inglês ou português em função da nacionalidade dos intervenientes - que abarca vários séculos, épocas e locais, entre a intriga política e as questões económicas e de gestão da Fundação Pig.
Na sua origem está a busca, na actualidade, de um misterioso artefacto que supostamente estaria na posse do pai Pig aquando do seu falecimento, e que estaria na origem da superioridade e do poderio do império britânico desde a época de Shakespeare.
Sob esse pretexto, a narrativa vai-se desenvolvendo a vários níveis, sob uma ligeira capa histórica, mas também numa abordagem com algo de fantástico e surreal, num crescendo moderado e com algumas ramificações inesperadas, que acabam por conduzir a um final lógico mas que a certo ponto parecia improvável.
Voltando de certa forma ao início, para a consistência de Super Pig tem contribuído de forma decisiva a sua publicação regular – embora este último adjectivo deva ser entendido com alguma cautela e apenas no contexto da produção editorial portuguesa de BD – graças à escolha de diferentes desenhadores para cada tomo. Isso permite, por um lado garantir a produção de novos volumes em períodos relativamente curtos e, por outro, escolher o traço mais adequado a cada um dos registos abordados.
É o que acontece em O Impaciente Inglês, cujo desenho esteve a cargo de André Pereira, que soube diluir o aspecto mais humorístico de Pig para o adequar a um registo mais sóbrio, apesar do tratamento caricatural de algumas personagens e/ou cenas, pese embora algumas escolhas (pontuais no conjunto da obra) menos conseguidas em termos de planificação. O regresso à cor de Super Pig esteve a cargo de Bernard Majer que soube ‘vestir’ convenientemente com uma paleta assumidamente limitada mas adequada, o traço de Pereira consoante as circunstâncias.

Super Pig: O Impaciente Inglês
Mário Freitas (argumento)
André Pereira (desenho)
Bernard Majer (cor)
Kingpin Books
Portugal, Outubro de 2013
273 x 191 mm, 96 p., cor, brochado com badanas
17,99 €

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