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20/12/2013

Natal aos quadradinhos






Apesar da crise são muitas e variadas as propostas de banda desenhada para se perder neste Natal, por isso, esqueça as meias e os chocolates. Em Portugal, apesar da crise, ainda se encontram muitas propostas aos quadradinhos, para (quase) todos os gostos, idades e bolsas, para oferecer às crianças e adultos que se portaram bem.
Curiosamente, dada a conjuntura, muitas dessas propostas até têm autoria nacional, em edições cuja pequena tiragem contrasta com o talento e a ambição dos criadores portugueses.
Descubra algumas das edições disponíveis no nosso país, já a seguir.


Em termos de vendas, As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy III – Requiem (ver caixa) detêm a primazia. À dimensão nacional, pode dizer-se que são mesmo um caso sério de vendas. O primeiro volume já vai na 6.ª edição, o segundo tem três e o terceiro (e último) tomo, Requiem, assente numa campanha mediática que incluiu o vídeo viral das aranhas gigantes em Lisboa e numa tournée nacional com a presença dos autores, o português Filipe Melo e os argentinos Juan Cavia e Santiago Villa, mostrou mais uma vez a popularidade dos improváveis heróis sediados em Lisboa e habituados a salvar o mundo das ameaças mais surpreendentes e fantásticas.

No entanto, se olharmos sob a óptica dos troféus – de interesse e projecção sempre discutíveis – é OBaile que se destaca. Obra de Nuno Duarte e Joana Afonso, de que acaba de ficar disponível a 2.ª edição, foi distinguida com os principais prémios para a BD nacional, e é uma história que decorre numa aldeia assombrada por mortos-vivos durante a ditadura salazarista, protagonizada por um agente da PIDE pouco convicto.

Entre as propostas nacionais distinguem-se igualmente Palmas para o esquilo, de David Soares e Pedro Serpa, uma incómoda viagem pela loucura, O Impaciente Inglês, de Mário Freitas, André Pereira e Bernardo Majer, sobre a procura de um artefacto isabelino, relacionado com a morte de Shakespeare, num amplo contexto ficcionado das relações luso-britânicas, e Comic Transfer, o resultado de um intercâmbio luso-alemão entre Ricardo Cabral e Till Laßmann, sobre a forma como vemos os outros e eles a nós.
A mais apropriada à época é, no entanto, No presépio…, que revisita, de forma satírica o primeiro Natal e é assinada por Álvaro e José Pinto Carneiro.

Os saudosistas das revistas periódicas de BD, aguardadas ansiosamente semana após semana, podem reviver esses tempos procurando Laços, uma revisão terna e emotiva da Turma da Mônica feita pelos irmãos Vítor e Lu Cafaggi, já disponível nos quiosques nacionais, onde já está a Disney Especial Natal, com uma selecção de histórias alusivas à quadra, protagonizadas por patos e ratos.

Outro (re)encontro possível é com o Príncipe Valente – que as revistas portuguesas também publicaram em profusão – com a magnífica arte de Hal Foster restaurada de forma apaixonada pelo português Manuel Caldas, numa edição que tem o (ligeiro) senão de ser em língua espanhola, para um editor… uruguaio(!). Apesar disso Los Guerreros de Hierro, com as pranchas publicadas originalmente em 1953 e 1954, pode ser encomendado em Portugal.

Também das revistas, em especial do saudoso Tintin, este fim de ano trouxe as versões portuguesas dos dois maiores best-sellers francófonos: Astérix entre os Pictos e Blake e Mortimer: A onda Septimus. Este último é uma sequela do mítico álbum A Marca Amarela, que levou os fleumáticos heróis britânicos de Jacobs para as ruas nevoentas de Londres.
Quanto ao primeiro álbum dos gauleses sem Goscinny e Uderzo, assinado por Ferri e Conrad, se a sua tiragem nacional permanece em segredo e está certamente longe dos dois milhões da edição francófona que esgotaram em poucos dias, é certamente relevante mesmo fora do círculo restrito da BD. Nele, os gauleses vão até à Caledónia (actual Escócia) para auxiliarem os pictos contra os romanos e um ditador local e descobrirem mistérios que chegaram aos nossos dias.
Foi também nas páginas do Tintin que se estreou Rosa Delta sem Saída, incursão na ficção-científica do português Fernando Relvas, agora recolhida em livro juntamente com Slow Motion.

Para quem nasceu tarde para ter este tipo de memórias, é melhor apostar em edições de manga (BD japonesa). Blue Exorcist, com o primeiro tomo acabado de publicar, Death Note e Naruto são alternativas possíveis. Este último faz a ponte com a TV, onde os mais pequenos vêem regularmente Geronimo Stilton. O rato jornalista, nascido em romances infanto-juvenis, tem também uma versão desenhada, cujo décimo tomo, O primeiro Samurai, o leva ao Japão do século XVII.

Ainda com a TV como mote, estão nas livrarias The Walking Dead – A calma antes, nova compilação dos comics onde a série nasceu, sensivelmente no mesmo ponto em que vai a série televisiva, apesar das diferenças entre os dois suportes que se têm vindo a aprofundar, e 99 séries de televisão parapessoas com pressa, que em apenas três vinhetas e de forma irónica resume alguns dos maiores sucessos televisivos das últimas décadas, de Anatomia de Grey aos Sopranos, passando por O Sexo e a Cidade ou o Barco do Amor.

Para os adeptos da BD franco-belga há Caroline Baldwin: Moon River, um policial intimista no feminino, e As Águias de Roma – Livro IV, um fresco de acção da autoria de Marini, sobre o período dos confrontos entre romanos e bárbaros.
De paragens próximas, em termos linguísticos, vêm Ardalén, do galego Miguelanxo Prado,  um longo e notável romance desenhado sobre a memória, que é uma das edições mais apetecíveis deste ano e lhe valeu o Prémio Nacionl del Comic, o mais importante galardão espanhol para BD, e Duas Luas, dos brasileiros André Diniz e Pablo Mayer, história intrigante sobre família, integridade e violência que decorre numa favela.

Para aqueles de quem o Pai Natal se esquecer ou a família achar que já ‘são grandes para ler quadradinhos’, restam as edições digitais, que têm a vantagem de serem gratuitas.
Se tiverem nervos de aço, Calafrios!, compilação de histórias clássicas de terror norte-americanas da década de 1950, pode ser a escolha. Quanto a Hanako, a primeira das Butterfly Chronicles criada por João Mascarenhas, dirige-se espacialmente aos apreciadores de manga, estando disponível em português, inglês e japonês.
Finalmente, o TLS WebMag, já com quatro números, reúne alguns dos mais talentosos artistas portugueses da nova geração que trabalham juntos no The Lisbon Studio.

(Versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 15 de Dezembro de 2013)                                                                                      

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