Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

30/04/2013

Oh, miúdas!












Sophie Michel (argumento)
Emmanuel Lepage (desenho e cor)
ASA
Portugal, Abril de 2013
170 x 245 mm, 128 p., cor, cartonado
21,90 €


Confesso alguma desilusão após a leitura deste livro, talvez motivada pelo deslumbramento que me causaram as obras mais recentes de Lepage: “Voyageaux Îles de la Désolation” e “Un Printemps à Tchernobyl”, cujo lado documental – desvendado numa base emotiva - permitia ao autor dar largas ao seu virtuosismo gráfico.
Em “Oh, Miúdas”, se o seu traço não alcança aquela excelência, está no entanto bem acima da média, com destaque para as belas figuras humanas, o soberbo tratamento de cor e algumas pranchas magníficas. É verdade que o formato da publicação portuguesa (próximo do comumente chamado “livro”) não é o ideal para desfrutar em pleno do desenho, mas se, em tempo de crise, este (formato) é o preço a pagar para continuarmos a ter banda desenhada em português, o mínimo que posso dizer é que entendo a opção.
Mas não foi a nível gráfico que “Oh, miúdas!” me desiludiu.
Na sua génese estão três raparigas, a cujo nascimento assistimos nas primeiras pranchas; são elas Chloé, Lella e Agnés. Duas louras e uma morena, duas brancas e uma árabe, duas naturais e uma emigrante, uma rica, uma remediada e uma pobre…
O problema da obra – que atrás já fica expresso - é o argumento, demasiado preso a estereótipos e convenções, que se limita a expor, sem desenvolver ou aprofundar da forma que poderia, muitas das situações apresentadas conforme vamos acompanhando o crescimento e desenvolvimento das três até à idade adulta, numa partilha de cumplicidades, dores e alegrias. Dessa forma (demasiado expositiva) assistimos a pais ausentes, mãe solteira, morte de mãe; racismo, abuso sexual, rebeldia adolescente, descoberta do sexo e droga; êxito nos estudos, vitória na dança, dom para as artes. Sempre com a sua amizade inabalável em pano de fundo
Tudo – naturalmente - numa história demasiado plana, quase um retrato impessoal de vivências que facilmente identificamos à nossa volta, mas que, apesar de a espaços conseguir prender o leitor, passou ao lado de ser uma obra de referência até porque – e regresso ao início, mesmo com as condicionantes já referidas, Lepage mostra o seu talento narrativo, numa planificação clássica mas onde os silêncios, geridos de forma assinalável, são expressivos e determinantes.



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