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25/10/2012

Un Printemps à Tchernobyl

Emmanuel Lepage
Futuropolis (França, Outubro de 2012)
225 x 330 mm, 168 p., cor, cartonado
24,50 €
Resumo
A 26 de Abril de 1986, em Tchernobyl, na Ucrânia - então ainda URSS - o núcleo de um reactor nuclear começou a fundir, dando origem à maior catástrofe nuclear do século XX, cujo número de vitimas, directas e indirectas (200.000? 300.000?) ainda está por averiguar.
22 anos mais tarde Emmanuel Lepage, que então contava 19 anos, integra durante 17 dias uma residência de autores no local, a convite da associação Dessin’Acteurs.
O resultado gráfico desses dias – publicado por aquela associação em 2008, com os lucros a reverterem para a associação Les Enfants de Tchernobyl – (res)surge agora sob a forma de uma banda desenhada,  nesta edição com o selo da Futuropolis.
Desenvolvimento
E revela-se mais um soberbo documentário aos quadradinhos, na senda do posterior “Voyages aux Îles de la Désolation”.
E, tal como no caso daquele livro, Lepage opta por um relato que, embora factual, tem um tom profundamente humano.
Por isso, em oposição ao seu desejo de utilizar o desenho como meio de denúncia e testemunho, revela todas as dúvidas e temores que o assolaram: se devia usar ou não o (frágil) material de protecção – sacos de plástico nos pés, luvas de latex, máscara – que os habitantes locais não usavam, se devia apanhar um lápis caído no chão, se queria ou não ir aos locais mais contaminados, se devia acentuar o tom trágico do relato ou permitir-se mostrar que apesar de tudo, para quem lá vive, a vida continua e há (alguma) esperança, (alguma) alegria, (alguma) cor…
Depois porque traça um retrato delicado e credível das vítimas do acidente e daqueles que hoje vivem nas zonas contaminadas, sem cair na tentação fácil de fazer deles uns “coitadinhos” ou de apelar à lágrima fácil, mas mostrando-os como seres humanos, com sonhos e ambições (desfeitos) mas também com defeitos e falhas – como todos nós. Gente que optou por continuar a (tentar sobre)viver, apesar de tudo, regressando ao local que um dia chamaram lar, pilhando casas e fábricas para subsistir…
Este tom humano ganha mais força perante a desolação e o vazio que transpiram dos magníficos desenhos com que Lepage (nos) mostra as zonas afectadas, quase sempre em tons “sujos” de cinza e sépia, explodindo aqui e ali numa bela aguarela colorida, para regressar de imediato ao opressivo tom global. Que é acentuado pela planificação dinâmica, com recurso frequente a vinhetas sobredimensionadas, que podem até invadir páginas contíguas, provocando no leitor um arrepio incómodo e um sentimento de impotência e de temor.
A reter
- A coragem de Lepage em aceitar o desafio, tão humanamente condimentada com humanos temores.
- A exposição sincera do autor perante o leitor.
- A capacidade de sustentar o tom documental que aproxima o leitor do relato.
- O desenho, soberbo.

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