Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

10/10/2012

Bruce J. Hawker - L'Intégrale #1

 
 
 
 
 

 
 
 
 
William Vance
Le Lombard (França, 28 de Setembro de 2012)
222 x 295 mm, 192 p., cor, cartonado
25,50 €
 
 
Resumo
Este é o primeiro de dois tomos com a reedição integral de Bruce J. Hawker, uma saga marítima criada por William Vance, que decorre no século XIX.
Reúne os álbuns “Cap sur Gibraltar”, “L’Orgie des Damnés" e "Press Gang", bem como 13 pranchas inéditas de “Les entrailles du H.M.S. Thunder” e um dossier repleto de ilustrações que situa esta criação no seu contexto e explica a sua génese.
O primeiro episódio de Bruce J. Hawker foi estreado na revista “Femmes d’Aujourd’hui”, em 1976, tendo depois sido remontado e, no caso de algumas páginas, redesenhado aquando da sua publicação na revista Tintin, nas suas versões belga e francesa, três anos mais tarde.
 
Desenvolvimento
Se hoje em dia William Vance é referenciado sobretudo pelo desenho do best-seller “XIII”, convém não esquecer que antes de atingir esse sucesso, tinha já uma carreira repleta de criações marcantes como Howard Flynn, Rodrigo, Bob Morane, Bruno Brazil ou este Bruce J. Hawker.
Nascido da vontade de Vance de desenhar o mar e passar para o papel a sua paixão pelas embarcações dos séculos XIII e XIX, Bruce J. Hawker é uma narrativa clássica de aventuras, com tudo o que isso implica de bom ou de menos conseguido.
A história dos três tomos agora compilados, resume-se com facilidade: tendo recebido o comando do H.M.S. Thunder, um navio da marinha de sua majestade britânica, o jovem tenente da Royal Navy Bruce J. Hawker é encarregado de uma missão secreta da maior importância: levar peças para uma arma secreta desde Inglaterra até ao Golfo de Cádis.
Atacado por uma numerosa frota espanhola, o H.M.S. Thunder é derrotado e apresado e os seus oficiais detidos. Após uma fuga recheada de peripécias, regressam a Inglaterra, onde Hawker é acusado de traição e destituído do seu posto, sendo renegado pelos pais adoptivos e pela noiva. Como uma tragédia nunca vem só, acabará por se ver recrutado à força para remar nos barcos de sua majestade…
Sinal de outros tempos – e de um modelo que fez sucesso na BD franco-belga - a acção decorre em ritmo elevado, com os acontecimentos a sucederem-se sem dar tempo ao leitor de parar para os considerar ou ao autor para desenvolver de forma consistente algumas das personagens secundárias, que até pareciam marcadas para assumir papel mais relevante, antes de as eliminar de vez. Assim obrigava o modelo (então) rígido das 46 pranchas por álbum, nos quais introdução, queda, encontro com o amor e nova ascensão, marcam uma cadência elevada apenas pausada pela descrição das cenas marítimas de batalha. Uma delas, logo no primeiro tomo, assume maior relevância, por descrever todas as acções dos homens que municiavam e manobravam os canhões, frente a um inimigo sempre oculto dos olhos do leitor, que só será revelado quando a batalha tem o seu desfecho.
Esse é um dos trunfos desta saga, a recriação pormenorizada e empenhada de uma época e de um modo de vida, duros e marcantes.
Na memória, eu tinha uma versão num belo preto e branco constrastante, publicada – não nas melhores condições técnicas – pelo Mundo de Aventuras, em 1982, sob o título “Rumo a Gibraltar”. A descoberta, agora, da sua versão original, com um colorido sóbrio e extremamente realista, foi um deleite. Vance recria com uma qualidade gráfica e um realismo espantosos uma Londres coberta de neve e nevoeiro, o mar revolto ou a coberta e interiores dos navios do século XIX, fazendo desta série um belo documento de época.
Outro sinal distintivo, é a planificação diversificada – e ousada para a época – que frequentemente “explode” o modelo tradicional de 3 ou 4 tiras por prancha, criando vinhetas duplas, triplas ou mesmo de página inteira ou inserindo vinhetas dentro de vinhetas, que para além de belos efeitos, se revelam instrumentos de grande utilidade na marcação do ritmo e na definição dos momentos de maior impacto da narrativa.
 
A reter
- O excelente trabalho gráfico de Vance.
- O prazer de reler um clássico da BD de aventuras franco-belga.
- Mais uma belíssima edição integral franco-belga – já há algum tempo que não trazia nenhuma aqui… – com um dossier muito pormenorizado e completo e uma capa magnífica de que quero destacar a textura.
 
Menos conseguido
- A previsibilidade da história, pese embora uma ou outra surpresa no seu desenrolar, apesar de tudo natural numa criação que é exemplo (bem) acabado de uma certa época e de uma certa forma de narrar em BD.
 
 
 

2 comentários:

  1. Caro Pedro
    É precisamente com a última imagem deste post que abre o Mundo de Aventuras nº 462 - "Uma Aventura do Tenente Bruce J. Hawker" - mas o "Rumo a Gibraltar" prolongou-se pelo nº 463 da revista.
    Concordo consigo quando refere a versão "num belo preto contrastante", pois o desenho de Vance presta-se a esta impressão (o M.A. publicou um "western" deste autor), mesmo quando afectada por algumas páginas com um branco menos carregado, impressas na Tipocromia Aguiar.
    Já não concordo tanto quando aponta, como menos conseguido, uma certa previsibilidade da história, condicionando este pormenor narrativo a uma certa época e a uma determinada forma de narrar.
    Julgo que a BD não se compartimenta em "escolas" ou "tendências", como a pintura, pois tem menos idade e a forma de narrar não possui épocas, mas públicos. Há a tendência de "menorizar" as produções dos anos 60, 70, 80, provavelmente as do último quartel do séc. XX, por imperar uma BD mais de aventuras, mais trepidante e menos introspectiva, experimental (como o Pedro Moura gosta, passe a comparação sem ofensa) ou filosófica. Há gostos para tudo. Julgo que esta obra de Vance permanece actual (salvo o período que narra nesta saga), não só no traço como no argumento.
    De qualquer forma, o Pedro Cleto fez bem em enfatizar o excelente trabalho de Vance e trazer a esta montra esta obra, que reputo suficientemente apelativa para uma versão em português.

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    Respostas
    1. Caro Santos Costa,
      Tam razão quanto a esta última imagem, mas foi mera coincidência!
      Já agora, fica a informação que o Mundo de Aventuras apresentou a versão inicial, publicada na "Femmes d'Aujourd'hui", e não a que saíu depois no "Tintin" e está incluída neste volume integral.
      A "previsibilidade" que aponto - que imperava nas décdas que refere - tem a ver com o modelo da BD de aventuras - não só franco-belga - com os "bons" a ganharem sempre e os "maus" sempre derrotados, sem lugar às bem mais interessantes personagens "cinzentas".
      Isso não significa que eu rejeite esse modelo - que alguma Bd continua a praticar nos nossos dias - pois são dessa época muitas das minhas memórias e histórias que continuo a ler com muito agrado!
      Quanto ao trabalho de Vance é sem dúvida do melhor que ele fez.
      Quanto a uma edição em português, da forma que as coisas andam, parece-me quase impossível...
      Boas leituras!

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